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terça-feira, 23 de abril de 2013

Torpor


Entorpecido, mergulhado em águas russas, afundo nas cobertas para deixar o que resta da noite para trás. A tontura temperada com saudades aleatórias me impede de segurar toda a correnteza prestes a perder o controle. Um gesto é tudo o que ocorre; Minha própria mão momentaneamente mostrando um flash das minhas verdadeiras cores, sempre tão bem guardadas. Uma fraqueza tola, entregando tanto por nada. Não é estranho quando nossos feitiços não surtam efeito?

Encantos, gestos, palavras e hinos navegando para fora de meus olhos em direção ao mundo, em vão. Quem reconheceria esses cantos desbotados?

Vidros, copos, ventos e vozes ao longe. Aqui, o pensamento de que sim, estou caído e derrotado. Perfeitamente humano. Penso na coerência da Imperfeição e decido, com o maior ato de ousadia do mundo, carregar um belo e sonoro perfeito tatuado no peito. Perfeito sim, do alto de minhas convicções estranhas a vocês. Perfeito, só para provocar o mundo por estar perdido nessa insanidade passageira - mas tão real.

Ah, já se foi o tempo em que talvez fosse possível moldar tudo isso que carrego em mim para que eu crescesse em outra direção. Talvez já tenha havido a chance de deixar essa essência estranha guardada lá no fundo, como um oceano secreto e assustadoramente silente. Talvez.

Essa tormenta é doce, porém constante; e no fim do dia ainda me pergunto: quem vai navegá-la, afinal?


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ashes

Mais uma esquecível noite de lua cheia para este mundo.

A terceira lua de inverno nesta cidade teoricamente calorosa é tão clara que ilumina tudo com certa naturalidade, fazendo com que o singelo frio pareça parte natural e eterna deste cenário tropical. O inverno tentou, sem sucesso, chegar em silêncio. Tímido como uma criança pálida que, enrolada em panos e cabelos longos, chama a atenção do resto da classe justamente por ser muda e apática. Patética.

Da janela do taxi eu analiso claramente os buracos escuros que a luz da lua teima em trazer à tona. A ilha, geralmente visível ao longe, hoje está imersa em neblina, totalmente invisível. Reflito sobre até que ponto eu gosto dessa não-visão quando, inevitavelmente, sinto o abandono da cidade numa noite de domingo me abraçar. Sinto o frio de alguns que dormem no chão da Rio Branco; ouço os gemidos daqueles que estão solitária e estrategicamente colocados em esquinas do centro da cidade. São muitos aqueles que tiveram suas luzes apagadas por conta da incompreensão alheia. Por um milésimo de segundo me declaro aos malabaristas de fogo, aos boêmios e aos artistas falidos. Aos ditos loucos e bregas e safados e caducos... Pessoas que brincam com o perigo diante de nossos olhos.

Então o fogo surge, por algum milagre, na minha mente. Ela subtamente vaga pelo incêncio que marcou certo morro na noite anterior. Lembro dos beijos que me tocavam enquanto o fogo consumia aquela rocha não tão distante. Lembro de me sufocar em toques, imaginando uma chuva de cinzas cobrindo minhas carícias diante do mar aberto. Desejo ver novamente a rocha em chamas e sinto um desejo incontrolável de tocar as cinzas que preenchiam minha mente. Quero me sentar e vê-las cobrirem a cidade inteira. Mas apenas vejo desaparecer, pela milésima vez e em graciosa decadência, a inocência da qual eu creio jamais ter sido dono. Eu vivo num eterno domingo, eu penso; e lanço um sorriso falso e vazio na tentativa de afastar de mim tal revelação. Tento em vão voltar o foco para a voz do motorista - a esta altura já um sussurro sem sentido - quando um acorde de piano me atinge.

Me pego então enfeitiçado por pequenos rascunhos de estrelas no asfalto. Minúsculo mosaico de vidro e sangue, num prelúdio de curva que precede o viaduto. Pequenos brilhos mesclados com tons vermelhos e branco-transparentes. Restos de sonhos, talvez. Ao fundo, palavras sem sentido para mim estão manchadas em muros cinzas. Sem dúvida um piano cairia bem ali. Sim, é justamente o elemento que falta para aquele quadro. E eu, com meus ouvidos dormentes de madrugada, sou o responsável por trazê-lo aqui.

Me torno cúmplice declarado de quem quer que tenha arranjado aquele cenário tão sutil, quase imperceptível, sabendo que tudo, meu caro, possui uma razão de ser. E o vidro, o sangue, a lua e a tinta foram colocados ali para que eu pintasse de vez o quadro de minha existência.

Eu vivo em um eterno domingo. Um lento domingo coberto de cinzas de uma constante e incontrolável saudade dos tempos em que a vida inteira cabia numa tenra manhã de sábado.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Cena


Após uma longa noite de monólogos dedicados às frias estrelas, um príncipe de vestes negras desperta em uma praia triste e silente, deitado em fina areia.

Sem traços de lembranças ou sussurros de sua imagem, não sabe quem é, nem de onde vem.
Não possui um nome e muito menos bagagem. Que história lhe deu origem?

Apenas uma folha cravada na areia com um punhal. Letras talhadas ao vento...

Areia branca e céu cinza, entrelaçados,
como onda raivosa e neve em mi menor.

Ele é uma gota de sangue naquela imensidão gelada.

Dedica sua nudez à fria manhã,
se tornando um ponto final
sem botas, capa, chapéu e paletó.

Canta seu triste hino enlouquecido, rasga as palavras de estranha língua
e entra nas águas em busca das lembranças que jamais voltarão.

Some aos poucos, deixando nada para trás.

Que cena estranha, eu penso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

P

Meus olhos transitam sem sucesso pela lista de nomes à procura de uma singela e impactante letra P. Há mais de um ano esta letra fora implantada sem face e sem sentido em minhas expectativas e, Deus, como eu me sinto idiota por prolongar essa história até hoje. Ainda assim, devemos concordar que, apesar de eu ser essa pessoa erm... sei lá, eu tenho lá minhas razões para isto. E depois, procurar alguém que comece com a letra P não é tão idiota, levando em conta o fato de eu ser alguém que procura mil formas de criar outros mundos (vide este blog) e levar fé em fantasias.

Entrei na sala tímido e provavelmente descabelado - sim, eu estou sempre descabelado e não, não é de uma forma muito estilosa. Anyway, estava chovendo - e sentei à frente da mesa, sorrindo em retorno à estranha gentileza que a mulher transmitia. Me sentia desconfortável e sem saber como agir, e descaradamente (e com o pé direito balançando no ar) reparava nos panos, nas caixinhas coloridas e nos móveis aparentemente normais que me cercavam.

Constrangido pelo silêncio, tirei da minha inseparável mochila a nota de 50,00 R$ para ouvir um curto e grosso não. "No final você bota o dinheiro na caixa". Sim. Já cheguei fazendo merda. Maravilha. Era mais fácil eu ter dado uma gargalhada e perguntando "ei, moça, já visitou o GuruWeb?". Tosco.

Ela então me disse que antes de mais nada faria uma espécie de diagnóstico, traçando meu perfil, para depois seguir com as previsões. Hum... Isso seria interessante. Na verdade, eu já tinha isto em vista, e por isso mesmo não transpareci nenhum dos meus gostos relevantes na forma de me vestir. Jeans básico, blusa cinza e sem graça (até velha) e um tênis surrado que usava para caminhar.

- Verde é uma cor que te faz bem. Você precisa de mais verde no seu quarto.

Ok. Me vendi para esta mulher aqui. E acho que, apesar do baque, eu consegui manter a linha nossa-claro-isso-é-totalmente-irrelevante-e-eu-nem-curto-verde-mas-prossiga-vírgula-sim, respirando fundo e sorrindo um sorriso bem amarelo.

- Você não dirige. Velocidade não te faz bem. Você tem medo.

Show. É tão óbvio assim que eu tenho carteira há quatro anos e só peguei no carro duas vezes? Oki doki.

- Tem muita facilidade para amizade com mulheres e animais.

Ou seja, bi-cho-na. (Y) Ainda mantendo o respeito, pensei. She's on fire.

- E você faz... Engenharia?

- Erm. Não. rs

- Não?

- Faço letras.

-Hm... Mas você gosta de criar, é isso que eu vi. Criar. Associei com exatas.

- ^^ (na forma-mais-Rique-de-ser)

Bem, ninguém é perfeito, mas garanto que ela soube recuperar a dignidade.

- E seu cabelo, ele tem um fundamento espiritual desde os seus sete anos de idade. Não corta o seu cabelo. Seu cabelo deve ser longo.

- ... Ok.

- Você tem um cigano, ele se chama xxxx e vem do sul da França. Toca violino.

(Eu disse que ela ia retomar a liderança).

- E você tem os espíritos de um avô e uma avó por parte de mãe que estão sempre ao seu lado te guiando. Você é muito mais apegado à família da sua mãe.

So far, so good. Tirando a gafe da engenharia (que valeu por, sei lá, três gafes?!) ela se saiu bem e continuou nossa consulta com uma série de coisas sem sentido, como uma folha inteira de nomes de pessoas com as quais eu deveria tomar cuidado (ahan, lógico. Vou tomar cuidado com a Cláudia. Ou pelo menos com uma das 1.345.624 Cláudias que eu ainda vou conhecer!) e uns papos loucos sobre uma viagem para a Bahia e outra para fora do Brasil. Na época eu estava quase indo para o Uruguai para apresentar um trabalho da iniciação científica, mas ainda assim... Não levei fé.

Ao me pegar envolvido pela forma quase desgovernada com a qual ela tirava as cartas (aliás, o baralho dela é exatamente igual ao meu) eu precisei manter o foco para discernir o que era diagnóstico e o que era previsão. Tudo vinha de forma muito mesclada, e confesso que os diagnósticos me fascinaram muito mais do que as previsões. Minha mãe foi muito bem definida, dissecada em palavras diante de mim. Meu pai, meu irmão... Tudo, tudo, tudo.

Ouvi coisas surreais, do jeito que eu gosto. Vivi em 15 países. Fui padre, dançarino, camponês, homossexual (é, aparentemente isso foi uma profissão? Ok, não peguemos no pé da moça.), músico... Enfim, consegui deixar essa realidade por uma boa hora e isso já valeu a consulta. De qualquer forma, é sempre bizarro olhar para trás e ver que seu avô faleceu num 1° de março quando esta mulher disse que ele partiria no final de fevereiro/início de março. É algo estranho.

O mais engraçado é que, de alguma forma, você sái dali vivendo em função do que você ouviu (menos em relação ao cabelo, que eu cortei logo no mês seguinte). Não, eu não faço as previsões ocorrerem, se é isso que você vai pensar. Eu não tinha como matar meu avô. E eu não tinha como me envolver por conta própria em um projeto musical que "não é bem cantado... Não é rock". Há coisas fora do nosso controle, sim. Coisas que estão, em algum nível, predestinadas a ocorrer.

Quase tudo o que eu ouvi ocorreu. Meu avô faleceu, meu pai praticamente tomou a frente dos trâmites relacionados à herança, me formei, me juntei a outro projeto musical da forma mais aleatória possível, estou com uma viagem para sair... E mais coisas das quais nem lembro agora. Falando por alto, soa vago: dividido entre duas pessoas no amor, uma renúncia no seu ano e uma escolha também. É vago? É. Mas foi exatamente assim. UMA única renúncia clara e nada planejada. UMA única escolha para a vida inteira, também.

Coisas extremamente pontuais se concretizaram. Menos a letra P, que levaria realmente um tempo para aparecer... A letra P, justo a previsão mais interessante, se não a mais desejada. Uma silhueta tosca. Um borrão no meu futuro. É isso que é a letra P. Não seria para sempre, ela avisou, mas ainda é isso o que eu mais quero. E tenho medo da letra P ser justamente a única falha existente nisso tudo. Muito medo. Mas ao chegar, marcaria para sempre. Eu poderia tentar mudar as coisas e sim, porque não fazer ser para sempre? Não sei. Eu espero. E a partir daqui eu já não sei mais o que vai acontecer.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

The One


Hoje à noite ele não poderia ser a vítima.

Entre a tela e seus olhos existe ar frio e som de músicas aleatórias às quais ele mal ouve. Elas servem hoje exclusivamente de recheio para ar frio de sexta-feira à noite. O ar sempre fica mais fácil de inalar aos fins de semana porque ele está seguro em casa. Sem dúvida alguma, não importa o que aconteça, é em casa que tudo se resolve.

Os olhos percorrem detalhadamente a tela de cima para baixo, como se estivessem à caça de alguém específico. Não é o caso, ele sabe. Na verdade ele busca qualquer pessoa. Ele procura algum fruto naquela vasta plantação virtual que cultivou ao longo de um bom tempo. Droga, toda a pose de independência treme nas bases. Não quer ser a vítima de novo. Não hoje. Não agora, meu Deus.

Finalmente o trabalho daquela noite terminara. Nunca fora bom de matemática e nunca se esforçara para isto, de fato. Mas agora fizera um esforço e, vejam só, conseguiu realizar uma longa conta por si só, e de cabeça: às 00:43 de uma sexta-feira ele percebe que possui 545 contatos à sua disposição.

Centenas de frases de efeito. Centenas de colocações pseudo-filosóficas e até mesmo poéticas gritando em sua tela. Um verdadeiro livro de pensamentos, mensagens e lembretes. Percorre todas buscando o trecho de música que traduza o vazio que sente, que dê sentido a essa ferida que vez ou outra sangra por conta de enfiarem o dedo sem dó. 545 é um número bem alto, viu só? Não precisa ser a vítima hoje, pois possui mais de cinco centenas de pessoas ali, a um dedo de distância.

De todos os nomes listados em sua frente, ele mantém contato com apenas dez ou doze, sendo destes apenas dois ou três realmente constantes em termos de conversas e, de fato, apenas um realmente esperado, ainda que em vão. É. 545, agora, não parece um número tão imponente. A autoconfiança desaba de vez e, que merda! Está novamente a um passo de assumir de vez o seu papel.

Em horas como esta, ele sente raiva de ser alvo de adjetivos geralmente associados a idéias de fofura, alegria e doçura. Falhara de novo e, mais uma vez, é a vítima. Que patético, hein! Está cansado deste papelzinho ridículo que acaba assumindo incessantemente. Estas palavras sempre vem acompanhadas de idéias de fraqueza, inércia, bobagem e irrelevância. Sim, essa é a palavra principal. Irrelevância. Ser como ele é o torna irrelevante. Sente que sua voz é secundária e, como sua imagem, é meramente ilustrativa. Sempre é anulado. Droga! Sempre um meio e nunca um fim em si.

Ele acha interessante, apesar de triste, que não só se tornara irrelevante, como também fora convertido em uma espécie de espelho. Cada contato vai até ele para aprender mais sobre si mesmo, para se enxergar a partir dele. Ficam horas falando de suas vidas e ouvindo conselhos para depois seguirem seus caminhos como se nada tivesse acontecido.

Ele, tolo que é, fica ali em sua inesgotável pseudo-paciência dando conselhos e opiniões. Se apenas vissem um traço de seu mau humor... Sorri imaginando as possibilidades.

Como refletir sobre isso sem parecer mesquinho, sem parecer que está cobrando cada palavra lida? Não, ele sabe que o problema não é ajudar pessoas. Nunca teve problema com isso, até porque (sejamos sinceros) ajudar alguém faz com que ele se sinta bem consigo mesmo.

Seu problema é a possibilidade de ter como destino a obrigação de estar a disposição de 545 pessoas (que em realidade são dez ou doze ou três ou duas) para que elas saibam que entre seus próprios mares de frases de efeitos há um ombro amigo e, ao ficarem tranquilas, desaparecerem. O problema é a ausência da situação inversa. O problema é precisar de alguém sem saber exatamente o porquê. O problema é, também, crescer em um mundo que te diz que, sem alguém, você não é ninguém.

Ele volta a observar as frases e acha engraçado como sempre ouve as pessoas dizerem que com toda a constante expensão tecnológica ninguém fica sozinho.

Merda. Em um mundo diferente, estaria neste exato momento encarando a noite com confiança e força, segurando delicadamente seu cigarro entre os dedos.

Mas claro que não.

Ele é fofo de mais para isso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fragmento


(...)

Eu:

Cacete....

Ele:

vc foi a pessoa mais digna de se casar que ja encontrei

Ele:

e que jamais encontrarei

Eu:

Pára.

Ele:

paro

Eu:

Você é perigoso.

Eu:

Mas eu poderia ficar aqui a noite inteira falando com vc e te dizendo o quanto é especial.

Eu:

mas vou dormir pq essa conversa já passou dos limites.

Ele:

sim

Ele:

ja passou

Eu:

...

Ele:

bem

Ele:

boa noite, rique.

Eu:

Ok.

Ele:

durma bem

Eu:

Boa noite.

Ele:

Durma bem, você também...

Ele:

sonhe com os anjos

Eu:

vc tbm...

Ele:

um beijo

Ele:

o beijo que eu nunca te dei.


______________________________________


Off



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Autumn's Child

A última vez em que o vi foi em uma lenta tarde de junho.

Estava abaixado, com a sua face voltada para o chão, não movendo seus finos olhos em direção alguma. E como eram negros, aqueles olhos. Ousadamente negros. Lembro deles como se os tivesse visto ontem.

Entoava quase internamente uma cantiga provavelmente mais velha que o tempo; e suas vestes simples e de uma só cor - de terra - faziam sentido em seu tímido balançar. Estava devastado por dentro, ao meu ver. Vazio, quase oco. Estranho e quase nu. Derrotado.

As folhas ao seu redor rodopiavam, distraiam e disfarçavam. Eu poderia ficar horas ali, encantado com a terrível cena. Talvez ele mesmo estivesse ali há horas. Há dias, talvez.

Então um súbito raio de orgulho surgiu, revivendo aquela pequena alma. Ganhou força e ergueu sua cabeça, exibindo sua face delicada como se fosse rara gema exposta ao sol nascente. Pálido e sem culpa nos olhos, abriu suas asas e voou.

Cansou de contar seus segredos para as mesmas folhas mortas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Romani

A cena se divide em duas partes: um mar de ondas de areia branca e um infinito céu escuro, repleto de estrelas cravadas em sua superfície lisa, lideradas por uma lua crescente. Apenas a fogueira define de forma delicada o limite entre o que é areia e o que é céu. Suas chamas queimam não apenas a madeira, pois também se alimentam dos sonhos opacos daqueles que a sua volta se encontram. Indivíduos sem história, tempo ou lugar. Seus sonhos nada mais são do que lembranças de alguém que viverá incontáveis anos a frente deles mesmos.

Ao olhar a lua minguante no céu, eu penso sobre como aquela mesma lua se encontrava ali quando o primeiro homem descobriu o fogo e a noite iluminada. Me choca a idade do tempo. E mais que isso, me choca sua inexistência exata. Tal inexistência sim é O Mistério, prova de que algo superior a nós nos observa e nos fala. Aquelas pessoas em volta da fogueira não me enxergam. Eu me sinto atraído por suas vestes, seus aromas e seus sons. Me aproximo.

Fita vermelha ao vento. Pandeirola em mãos em ritmo circular, quase hipnotizante. Ela roda em torno do fogo como se tal dança fosse a única missão de sua ínfima existência. Dona de uma longa saia também vermelha e de cabelos longos e negros, ela dança como a lembrança vaga que é. Seus olhos parecem vazios. Eu sinto algum conforto em sua dança e percebo claramente que respeito esta mulher.

Sentado na areia, sem piscar, um homem de olhar negro e pele avermelhada me desafia. Seus cabelos pretos estão parcialmente escondidos por um lenço; suas mãos tiram sons de seu instrumento como se fossem seres com vontade própria. Não gosto dele, sem exatamente encontrar uma razão para isto. Tal homem instiga em mim sentimentos estranhos e sem nome. Ele me incomoda de forma íntima, quase proposital.

Então olho o fogo; e sem ter grandes esperanças relacionadas à minha vida, finalmente entendo. Contudo, momentos assim, de epifania, podem ser como pequenas desgraças que, apesar de passageiras, deixam marcas eternas. Em tais momentos, a vida faz todo sentido. Escutamos Deus e enxergamos o tempo, mas não conseguimos expressar tal conhecimento. É algo que deve ficar preso, silente em nossa alma.

Mais que a audaciosa mulher, ele me intriga - e o faz em silêncio – pois seu olhar fixo no fogo me diz que ele sabe que está sendo observado. É num misto de conforto e dor, de saudade e angústia, que eu entendo:

Aquele homem sou eu.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O Ipod e o Tempo vs. Eu e o Chão

Calço o tênis como se estivesse indo para a guilhotina. São 17:23 e não sei se subo para ler algumas coisas ou se saio para caminhar. A dúvida vem disfarçada de uma falsa preguiça - que não passa de medo - me dizendo que ao pisar lá fora eu estarei me sujeitando às mesmas peças pregadas em mim todas as vezes em que me aventurei a enfrentar as terras guardadas atrás da segunda curva à direita de minha rua. Decido-me por sair: ipod no bolso (suffle para completar o sadomasoqusimo, você já vai entender.) e portão fechado atrás de mim. Sinto de antemão que só o chão de fato estará comigo nessa jornada. O resto sempre se esvai.

Esta é a melhor hora para se fazer esse tipo de coisa. O sol vai deixando meio planeta parado durante a noite para tocar para frente o tempo do outro lado do mundo. Essa é a hora mágica que escolhi para viajar no tempo. Meio nada a ver, mas que seja. Venta o suficiente para bagunçar todo meu mais novo corte - SO gay. Well, tell me the news - e eu sigo com um frio na barriga que congela até meu rosto. Com as poucas estrelas que surgem tímidas, o vento traz gotas de cheiros aparentemente velhos. Em cada golpe de ar inúmeras gotas; em cada gota inúmeros anos que chegam a mim em forma de faces, sorrisos e canções. Ái, as canções! Uma atrás da outra literalmente me esfaqueando - I'm falling apart, I'm barely breathing... - eu sigo de cabeça erguida.

Caminho e finjo não ver as pedras que estão naquela praia desde antes de eu nascer. Finjo ignorar as pessoas que sempre estiveram sentadas nos mesmos lugares e os barquinhos que sempre enfeitaram a mesma paisagem. São olhares tristes que não me viram crescer, embora eu sempre os tenha visto. Todos sempre estiveram lá desde que me conheço por gente. São figuras que não têm a menor idéia de que cresci guardando seus rostos, seus lugares e seus olhos melancólicos. Passo por tais ícones segurando 10 anos de lembranças em poucas lágrimas que não caem. Tudo me lembra tudo - Life has a funny, funny way... - em um encadeamento de lembranças que mais parece uma avalanche.

É uma espécie de castigo me sentir tão preso a essa ilha. Ainda mais quando quem realmente importa não mais se encontra aqui, seja em corpo ou seja em mente. Existem algumas pessoas que até sabem que são estrelas no seu céu, mas estas, na minha vida, sempre fazem questão de se dissipar. Nenhuma sente essa saudade. Nenhuma evita esse caminho para não ser arrastada para o passado. Pior ainda: nenhuma enfrenta esse caminho para ser arrastada para o passado. Para mim esse caminho não passa de uma ferida que, apesar de sangrar apenas quando eu mexo nela, não está fechada. Ferida só minha. Ferida sozinha.

Obviamente nem tudo em um caminho como este é fácil de encarar. Sei que a antiga casa de um grande - meu melhor - amigo fica ali naquela ladeira, perto da nossa (ex) escola - And I wanna believe you, but I don't... - e trato de passar direto pela esquina que poderia me levar até lá. A coragem não é tanta assim. Me contento em lembrar de cartas de baralho, almoços e tardes de educação física. Tardes que culminavam em preguiçosas horas na casa dele. Até sorrio.

No fundo eu gosto de sentir cada cheiro e olhar em cada um dos olhos que não se lembram de mim com esta mesma dor. Talvez seja uma benção esquecer das coisas... Ou simplesmente contemplá-las sem sentí-las. Comigo é tudo sempre diferente. Quanto mais o tempo passa, mais fortes as lembranças voltam. Então eu me deparo com tias que hoje são senhoras sem rosto e professoras de ciências que em plena sexta série me defendiam de futuros trogloditas – Lê-se crianças heterossexualmente escrotas - e hoje caminham como eu, só que pensando no presente (era ela sim, eu vi!). É uma auto-tortura esse trajeto, eu sei. Talvez se eu o fizesse acompanhado de alguém e sem esse ipod torturador ele não me doesse tanto - the space between é uma escolha simplesmente escrota. Show me some respect, shuffle uó!

Bem, no final das contas, essa dor aqui, de saudade, eu faço questão de manter. Vou abrir essa ferida todas as vezes em que o presente me arrancar lágrimas. Chorar de saudade é sempre melhor do que chorar de tristeza; e cada vez que eu chorar por tudo que vivi com vocês, cada vez que cada curva e cada árvore e cada portão me abater por causa de vocês, lembranças, vocês se tornarão eternas e reais em qualquer lugar, a qualquer momento; e vão ficar marcadas em ventos futuros que vão me envolver e me arrastar tempo afora todas as vezes em que eu sair para caminhar. Quer vocês queiram ou não.

- I got all the time for you, love...


quarta-feira, 16 de abril de 2008

Uma Vida Inteira (And he knew it was love...)


Ao passar a mão em seus cabelos bagunçados, ele concretiza em seu olhar o oceano inteiro em uma única gota de saudade. O mar em seus olhos acolhe e dissipa dissimuladamente as saudades que virão quando o futuro pressentido chegar. Sente saudade daquele mesmo momento, delicadamente observado de uma bicicleta parada na areia. Nunca soubera por em palavras tal evento, mas era puramente saudade. Uma saudade afinada, em tom menor, daquilo que estava acontecendo. Saudade de tudo aquilo que ele nem havia vivido.

Tinha a certeza da veracidade do estranho sentimento, pois sentia algo maior por vir. Ouvia a grandiosidade do poder de sonhar, sentindo assim, antecipadamente, saudade das águas obedientes à lua crescente, existentes apenas ali, no seu mundo isolado e simples. Já sentia saudade de qualquer noite de segunda-feira de maio. Noites em que estava sozinho em casa, dançando canções que somente a ele pertenciam. Noites com cheiro de cravo e canela, em páginas borradas de deveres mal feitos e sonhos. Sim, sonhos! Com sonhos, quem precisaria de deveres? Sempre falaria isso em alto e bom tom, rindo de sua própria falta de sensibilidade em relação ao que não lhe interessava.

Seus simples gestos diante do hibridismo daquele estranho sentimento era um ritual diário: bicicleta, praia, lua e vento. O enlace que unia passado, presente e futuro se dava em tais momentos, os tornando pequenas dádivas que portavam o título de verdadeiros milagres secretos. Ficaria horas imaginando como cada alegria realizada no futuro viajava no tempo e o atingia lá no passado – para ele, presente – fazendo-o sentir uma felicidade inexplicável.

Tentava decifrar que alegrias futuras transitavam assim, da frente pra trás. E perdia-se nas horas tentando saber se escapavam do futuro para o passado por serem alegrias grandes de mais para caber em um tempo só. Poderiam ser beijos correspondidos, sorrisos doces ou simplesmente abraços apertados. Tão inexplicável, mas até certo ponto, pois ele sabia que tudo isso era amor. Era uma flor nascendo em meio às pedras! Tais alegrias misteriosas eram os olhos de anjos confidentes! Eram o prenúncio de sonhos realizados em um futuro não vivido e muito menos especificado! Então, ao sorrir, inexplicavelmente ele sabia que quem se colocava por trás de tudo, quem permanecia até o fim, era o amor... Tão além do que ele poderia compreender, mas era o amor... E foi assim que ele sorriu e percebeu os sons do tempo.

Quando ele passa a mão nos cabelos bagunçados, de frente para o mar, lá no passado, ele está no futuro vendo um mundo que existe além da porção de terra ocupada por ele. Seus dedos atravessam seus cabelos para tocar o rosto do amigo que ainda não entrara em sua vida; Seus dedos tocam as cordas que ainda nem sequer foram pensadas por suas mãos pálidas de noite de outono e seu coração, perplexo e gelado, chora a partida daquele que antes mesmo de chegar já foi embora. Laços do tempo transformando-se em indecifráveis nós dentro do coração humano. Ele sabia que era o amor vencendo o tempo.

Mas com sonhos, quem precisaria de tempo? Pensa ele no futuro - para ele, presente - ao digitar este texto.

Sabe então que o amor é tudo o que ele pode compreender.

segunda-feira, 17 de março de 2008

O Efeito Loxian


Não fora o primeiro e nem seria o último a ter certeza de que o ar que o tocava era o mesmo que envolvia cada estrela que cabia no céu. Não se tratava de um estudioso do espaço, contudo, em sua humildade, sempre fechado e sereno, deitava-se todas as noites para contemplar cada singelo ponto pendurado no firmamento. Gostava de pensar que a noite nada mais era do que a vida por baixo de um vasto oceano negro. Compenetrado, ele observava cada detalhe como se fosse um sábio conhecedor, quase um amigo íntimo de longa data de cada estrela. Se era sábio ou não, não sei ao certo. Não cabe a mim decidir algo desta natureza. Mas com certeza ele foi alguém que apenas seguia seu coração. E não se julga um coração que segue seus instintos.

Como dois grandes quadros seus olhos guardavam todos os pequeninos reflexos que conseguia captar. Permanecia atento até sentir-se estranhamente só; e enviava pensamentos nas mais variadas direções. Eram apelos, preces, perguntas e confissões. Lançava-os como pedrinhas ao mar, na esperança de obter alguma resposta, na angustiante espera de perceber algum brilho especial que o fizesse ter certeza de que havia alguém ali. Apenas alguém.

Sentir-se amigo íntimo de todas as estrelas é sentir-se só, pois elas são infinitas. Contudo, certa noite tal estranho sentimento teve o seu fim, quando tendo seus olhos presos em um delicado ponto azul, sentiu-se deixar de pertencer a todas elas. Fora preso pelo delicado ponto distante, que de forma alguma se tratava do ornamento mais elaborado daquele céu. E mesmo não se tratando do brilho mais extravagante a ser visto, foi ali que seu coração encontrou conforto; e então ele pôde contemplar as cores vivas do sentimento de não ser só. Assim, em infindáveis segundos, alguma ponte foi feita entre ele e a estrela. Foi então que desenhou em sua noite um novo alfabeto, podendo sigilosamente trocar as mais delicadas confidências com sua nova amiga.

"Eram íntimos, eram dois e eram um, pois na eterna noite que é o espaço tudo é possível", me disseram certa vez, não me deixando dúvidas quanto a autenticidade dos sentimentos que nasceram daqueles olhos presos em uma estrela. Há quem diga que no momento em que ambos se cruzaram todas as outras estrelas sentiram-se magoadas e invejosas em relação àquela amizade.

Foi então que um outro ponto - certamente por ciúmes - rasgou o céu de um lado a outro, sem dó nem piedade da relação que acabara de nascer. Tal surpresa tirou seus olhos do distante ponto azul, que perdera-se em meio a todos os outros astros, sem ao menos dizer adeus. Derramou tímidas lágrimas antes de perder de vista o seu singelo ponto azul. Perdera-o para sempre, não havia dúvida. Contudo, sorriu ao saber, de alguma forma dentro de si, que havia vida fora de suas terras. Vida que pulsava e harmoniosamente se fazia perceber. Saberia definir aquilo? Não. Saberia explicar o que se passara? Jamais.

Existem coisas as quais simplesmente não se explicam. Sabemos sentí-las, mas não estamos aptos a entendê-las ou definí-las. A lógica da alma é algo obscuro e envolto em névoas; e é isso que todos nós precisamos entender. Essa harmonia mútua que ocorre entre duas almas não existe para ser decifrada. Em outras palavras, quero dizer que tudo que precisamos saber a seu respeito nos é inato, simplesmente agindo através de nossos corações. É essa a razão pela qual, embora soubesse que não estava só naquela noite, ele nunca soube que do outro lado do céu, encantada por um distante ponto vermelho, Lya admirava o céu de Moscou com nostalgia concreta. Sabendo - mesmo sem saber, meus amigos - que exatamente no ponto vermelho alguém a sentia no ar.

São caminhos que se cruzam no plano da Mãe Vida.
Olhares que se encontram na multidão infinita das estrelas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

ελεγεία (Elegia)


“But afterwards there occurred violent earthquakes and floods; and in a single day and night of misfortune all your warlike men in a body sank into the earth, and the island of Atlantis in like manner disappeared in the depths of the sea.”

- “Timaeus”, Plato -




Um raio rubro foi aquele primeiro a cortar o céu negro daquela noite. Veio com a rapidez de um pensamento frívolo, daqueles que passam desapercebidos pelas mentes tolas dos homens. Tal raio cortara as entranhas do céu declarando que o fim era ali, dando início à última tempestade que vi em minha antiga terra. A glória que reinava nos fartos tempos passados sangrava caída no chão, que sob os nossos pés desabava em grãos úmidos e sem vida, sem paz ou qualquer esboço de esperança. Juntamente com os raios, as gigantescas ondas abatiam-se sem piedade, lançando pesados golpes aos homens. Todos rastejavam como vermes, inconformados e banhados a lágrimas e ecos das antigas profecias. Com a queda das ondas veio a queda da grande torre; e com a queda da torre, a queda da realeza daqueles homens, estes sendo os primeiros causadores de todo o caos, aqueles que iniciaram a maior queda que a terra já presenciou dentro dos confins dos dois grandes e inseparáveis sábios que são o tempo e o espaço.

Despertei em meu leito com o grito de uma criança vindo dos jardins. Apesar de ter sentido há dias os pequenos tremores na terra, naquele dia havia algo a mais. Peregrinos vindos da costa oeste se encontravam desolados, sem suas casas e seus bens. Alegavam que ondas gigantescas haviam destruído tudo fora dos limites da costa. Em meio ao caos que tomava conta de meu vilarejo, o silêncio chegou com a queda do poderoso raio, que lançou sobre a terra um crescente tremor, tirando todos nós de nossos lares. Pouco a pouco o céu fechava-se em um tom negro de rebeldia e punição. Não restava dúvida de que as profecias se concretizavam. Senti o pânico tocar o coração de todos os meus companheiros. Permaneci imóvel.

Observando descrente e confuso o que se passava, tentei me encontrar em meio a triste guerra travada entre os Deuses e os homens. Todos corriam em diferentes direções. Ouvia gritos incandescentes, urros desesperadores. Me virei lentamente, em choque, ao me dar conta de que ali, entre tantos gritos sem sentido, ouvira meu nome. Da escuridão e da agonia, meu nome pronunciado veio como uma gota de luz em um escuro abismo. Não morri e nem me entregaria. Não eu. Jovem que era, tinha em mim a ambição típica daquele povo que em poucas horas se transformou na mais grandiosa lenda, passada de voz em voz, de sábio para sábio.

Virando subitamente vi minha casa afundar-se em míseros instantes terra a dentro. Minha vida inteira, minha família e lembranças agora estavam nas profundezas. A gota de luz se perdera no abismo. Corri. Não ousei olhar para trás. Corri rumo ao Leste guiado por instinto, sentindo uma forte presença vermelha nos céus. Não ouvi o medo, meus caros. Nem sequer pensei. Mas ouvi meu coração orgulhoso clamar por vida e senti minha alma queimar no desejo intenso de perpetuar a vida de minha poderosa nação. Não deixaria o fim daquela terra me levar.

Ao parar debaixo da copa de uma antiga árvore, o dia já havia se transformado em noite, descendo seu escuro manto sobre aqueles que outrora reinavam soberanos sobre os homens. Raios cada vez mais estrondosos ruíam as torres de minha amada terra, até então poderosa rainha dos mares... Corri por entre as árvores a fim de alcançar uma das últimas embarcações que saíam da costa leste rumo às abundantes terras dos colonos. Rumores diziam que tais embarcações se encontravam preparadas pelos antigos há muitas semanas.

Foi então que, passando uma última vez pelos bosques, em direção às praias, avistei de longe o imponente templo do Sol. Estava tão silente, tão calmo... Parecia inabalável a todo o caos que se instalara desde a manhã daquele dia. Era meu dever como filho daquela terra me despedir. Ali eu mal sentia os tremores e os ruídos assustadores que vinham das profundezas da terra. Suas paredes contavam toda a história da humanidade até então viva, através de cores, rostos e nomes dos quais jamais esquecerei.

Caminhando pela ala central lembrei do poder construído pelos homens através de milênios de existências naquelas terras azuis, filhas da água; e de seu interior pude contemplar pela última vez a visão da lua vista diretamente da janela maior. Estava vermelha, claramente visivel atrás de algumas nuvens; e como uma verdadeira soberana ela fazia dos raios seus meros aprendizes, pequenos sinos anunciando a fim daquele negro capítulo. Pareciam vir dela, caindo e afundando – talvez ornamentando, até - as terras em um cataclismo capaz de abalar mundos inteiros. Lembrei de minha esposa e pensei em minhas filhas, por pouco não desabando com o templo. Queria sucumbir e tomar minha parte na fusão que se dava entre a imensidão das terras com a imensidão das águas. Fui interrompido pelas paredes que começavam seu amargo lamento de despedida. Ajoelhado diante do registro indelével de minha história, beijei o chão e parti.

Corri sem me virar, sentindo as terras que deixava para trás de cederem à água. Corri, dando cada passo em nome de minha vida, de minha família e de minha terra, alcançando por fim as praias que continham em suas antigas areias as memórias infinitas daquele povo tão orgulhoso e soberano. A fúria da estrondosa batalha entre as terras e as águas tornava quase impossível ter esperanças. Deseperadamente corri sem rumo algum. Nunca em minha vida ouvira sons tão funestos e pesados. Doíam em meu interior, pois se não fossem os sons das dolorosas lágrimas de minha terra, eram os gritos dos Deuses. Verdadeiros urros titânicos.

Ao atingir as areias, para minha surpresa avistei três embarcações, prontas para arriscar uma fuga. Me salvei levando comigo apenas as vestes que estavam em meu corpo, sabendo que as chances de naufragarmos naquelas furiosas águas eram enormes. Assim, tudo que me restou dos últimos instantes em que estive em contato com minha terra desde que acordara era a esperança de ter vida e tempo para crer em tudo que estava se perdendo.

Afastamo-nos o máximo que pudemos, gritando como homens em guerra, na tentativa de sufocar os gritos e ruídos ensurdecedores que agora tomavam conta de tudo. Havia fogo, névoa e muito ódio em nossos corações. Diante da natureza - e dos Deuses conseqüentemente – nós somos impotentes. Pensei no poder de nossos Deuses, incomparavelmente maior que o nosso. Lembrei de como a minha raça os desafiara, tentando tomar seu lugar na terra. O som dos tremores repentinamente colidiram em um só explosão, nos lançando a incontáveis metros de distância. Ao retornar a mim mesmo, percebi os estrondosos ruídos se juntarem em um único som, por fim cedendo espaço aos sons leves da água, que já recolhia suas gigantescas ondas.

Pouco a pouco o fogo sumira e os céus calaram-se. Senti que toda a terra podia ouvir o triste fim de meu povo. Fim no qual tudo se perdeu num misto de terras e água, banhados por raios ensurdecedores e fogo. Em apenas um dia e uma noite todo o império e suas fartas terras sucumbiram nas frias águas do oceano. Restavam apenas nós, a lua vermelha e as águas.

A Atlântida não mais existia.


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Samhaim


"As you turned to go I heard you call my name,
You were like a bird in a cage spreading its wings to fly
''The old ways are lost,' you sang as you flew
And I wondered why."

- The Old Ways, Loreenna McKennitt -



Olhos negros e fortes eram aqueles que com força incisiva se fixavam sobre o mar. Eram olhos que possuiam os tons mais belos da natureza e abarcavam em si todo o vasto universo, com todos os seus segredos e anjos. Com todos os seus Deuses e todos os seus demônios. O vento frio brincava em seus longos cabelos enquanto ela acariciava a mais terrível fera daquela embarcação em seu colo. E brincava com os Deuses ouvindo os prenúncios de sonhos que soavam da distante terra para qual seguia. Dono de tantos mistérios femininos, seu coração possuia as chaves das verdades. Ele sim conseguia ouvir o que aquela elegante fera tinha a dizer, conduzindo a jornada em ritmo de uma tranqüila fuga. Assim, em prece e com seus olhos perdidos na imensidão azul, ela acariciava calada, em uníssono com as águas que cercavam aquela rústica embarcação, o silêncio de quem foge dos homens cruéis. Fugia para um último abraço de sua amada mãe terra.

O motivo de sua fuga pelos mares era apenas um: o fogo. Nele perecia todo aquele que tivesse acesso às verdades da Grande Mãe. E em seu errôneo uso ele era obrigado a lançar chamas em milhares de mulheres, homens e crianças, que no fundo nada mais eram do que simples filhos da natureza, que jamais deixariam de lado seus círculos, suas danças e seus Deuses. Apenas o fogo, erroneamente comandado por homens-bestas, era capaz de impedí-los. E apenas o fogo, apesar de cruel nesta ocasião, os libertava de um mundo onde apenas um Deus poderia reinar, através do sangue derramado. Sangue pagão de quem carregava aquela que é tríplice no coração.

Perdido no passado era o tempo em que as forças opostas equilibravam a vida. Agora, em trevas se encontravam aqueles irmãos e irmãs, filhos da Grande Mãe, carregando o sangue que corre nas veias das árvores e dos rios. Almas leves que brotaram das flores e das pedras, outrora preenchendo as terras com suas cores e seus perfumes de Maio... Tantas perderam-se no fogo, enquanto raras tentavam se encontrar na água. Quase perdidas.

Tais almas navegavam guiadas pelo silêncio para a esperança de uma nova terra, rumo às clareiras e bosques que as receberiam em seus secretos altares como um palácio recebe sua realeza. Fugiam para uma liberdade temporária que acabaria em chamas mais cedo ou mais tarde. Seguiam para uma última celebração; e navegando em resquícios de doces sonhos de uma outra era, ela, como uma sacerdotisa, acariciava o silêncio como uma mãe acaricia seu filho doente.

Não crer? – Jamais. Não ousaria perder a fé naquela que sempre a guiara, pois sabia que em sua glória jamais pereceria. Sabia em sua alma que seu corpo era ilusão passageira, porém sua fé e sua arte poderiam sobreviver a qualquer ódio ou força de todo e qualquer homem. Cantarolava com orgulho e tristeza o hino à nova terra, sabendo que um dia, cansada da tirania dos homens, dançaria com vida na terra dos mortos; e sua arte renasceria em um tempo distante daquele, trazendo ela, seus irmãos e suas irmãs para um novo nascer do sol.