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sábado, 14 de junho de 2014

(latim febris, -is)



Não há nada mais invisivelmente poderoso para acabar com as cartas de uma noite de sábado que uma febre. Sim, isso foi uma referência ao tarô. Eu sou esse cara. Bem, de acordo com o Priberam, a febre é um estado patológico caracterizado pelo aumento da temperatura no sangue, aceleração do pulso e inapetência. Ou um desejo ardente. Ou uma grande agitação. E eu fico com as três definições por hora, e vou mais além. Tipo, febre é algo horrível. Sério, isso é claramente subestimado, se pararmos para pensar que é o hipotálamo que controla a temperatura do nosso corpo, sempre abaixo dos trinta e sete graus celsius. Como um treco dentro de mim controla a temperatura de meus órgãos? Sempre vou achar isso mega esquisito. A gente não pensa muito isso, na verdade. E eu estava agora jogado na minha cama, alternando meu sono entre o peso do meu corpo e os vikings lutando na TV. Vish. Um verdadeiro exército em ebulição, que nem meu sangue. Há dias em que me sinto um guerreiro por ter vivenciado certas coisas – ser gay, ser músico, ser professor e todo o bla bla blá que não é bla bla blá; e às vezes tenho dias assim, em que eu sou basicamente uma amoeba mesmo. Roxa e gosmenta. Não me joguem na parede. Em suma, um fiasco.

Há pouco mais de um ano decidi começar a malhar e dar um gás numa revolução sexual definitiva que vai dos confins de meu guarda-roupa ao último fio da minha barba por fazer, e tudo tem ido bem. Aprendi a aceitar os pesos que levanto diariamente, a tapioca no lugar do pão. As frutas. O doloroso adeus ao kit-kat e ao twix, fiéis escudeiros de milhares de horas de mais de onze séries. Aprendi a me alimentar dos elogios que ouço aqui e ali. Das mãos cada vez mais requisitadas sentindo os resultados que nem chegaram. Nunca vivi isso, cara. Me faz tão bem. Mas daí hoje eu estou vergonhosamente patético, aqui nesse momento. Caladinho, indefeso e tomando chá numa taça pseudo-medieval-celta-hobbit-evoquing-RPG-sucker-kind-of-shit. A pior parte é que eu sei que isso é tão a minha cara. Eu sou tão brega, meu deus. Ou pelo menos posso ser. E nem tenho muita vergonha disso. Às vezes é um charme a mais, e às vezes eu tenho a impressão que não interessa o número de placas que eu consiga puxar na academia ou os cortes de cabelos que eu invente, no fim do dia eu ainda vou voltar pro meu quarto cheio de gnomos, nessa onda teen-wicca-nerd-gótica-que acha-que-se-morar-na-Irlanda-vai-viver-uma-coisa-parecida-com-Zelda-ou-Tolkien-ou-Game-of-bloody-Thrones-e-não-saca-que-vikings-e-celtas-não-se-davam-bem. E eu toco viela de fuckin’ roda. Aliás, semana passada estava tocando e decidi ir direto pra night encontrar meus amigos. Com um violino nas costas. Você pensaria que isso seria algo épico e sensual. BIG NO NO. Nunca me senti tão macaquinho de circo, ou violinista de churrascaria (nada muito contra o cargo, apenas não é para mim). Até o DJ se ofereceu para tomar conta do meu violino. Pelo menos ele era gato.

E galera, eu ainda por cima fiz letras! E hoje estou aqui ~dibowie~ ouvindo Forfun. E pensando em como vou conseguir me segurar estando perto do amor de minha vida da minha crush mais tarde. Aquele para quem me declarei há exatamente um ano, aquele para quem compus duas músicas em 30 segundos, e cujo o texto de aniversário me rendeu uma noite onírica em beijos e um ano de melancolia e confusão, partindo corações que se propuseram a me dar o que ele não pode ou quer me dar. Eu fiz um tumblr para ele, postando uma música que gostaria de cantar para ele por dia. Por um mês. Ele nunca nem ouviu a primeira palavra da primeira música. Sou um partidão, mesmo. Estou indo para a festa desse cara. Corram e me add. OK, parei. Voltemos aos meus heróis.

Eu vejo esses vikings saindo da Noruega num barquinho - uma porra de um barquinho charmoso, com uma serpente ou dragão ou sei lá o quê - achando que não havia terras ao oeste, desbravando o Mar do Norte e chegando às Ilhas Britânicas como se estivessem chegando em outra dimensão. Olha, eu preciso dizer que se você não desbravou o mar quando o mundo não era o mundo ou não desvendou e explorou um novo planeta habitado, você não é tão épico. Sim, sou meio chato em relação às coisas às quais atribuo esse adjetivo. Eu queria tanto essa adrenalina da descoberta. Eu sei que adrenalina vicia; sei disso porque de bicho do mato/múmia nos palcos me transformei em alguém que sente falta do frio na barriga pré-gig, tocando seja para três bêbados ou cinquenta mil pessoas num estádio. E eu queria tanto esse frio na barriga maior. É como se eu vivesse num jogo que já foi zerado, entende? E eu nem vi nada desse mundo. Nem 0,00000000000001% dele.

Não quero diminuir o nobre ato de viajar hoje em dia, e os deuses (#brega alert #wicca alert #nerd alert #folkmetal alert) sabem que me senti meio assim na primeira vez em que saí do Brasil e terminei pisando em Dublin. O que me parte o coração é que eu cheguei lá em 14 horas, sabendo o que me esperava. E com pavor (PAVOR) de avião. Não havia guerreiros para eu defender com espadas, nem o risco de não haver terra. Eu não achava que uma serpente gigante dos deuses bons engoliria meu avião e eu perderia meu lugar no céu, enchendo a cara com deuses e guerreiros épicos. O que eu estou tentando dizer é que eu já sei de quase tudo que eu posso ver em algumas horas, se eu tiver dinheiro suficiente. E o último cara com quem eu tive um lance veio do Equador. E uma das minhas melhores amigas é irlandesa e um senhor que vira e mexe pega a barca do centro comigo é holandês. E meu irmão está indo pra Croácia dentro de alguns dias. É um sentimento quase claustrofóbico, estar preso dentro de uma atmosfera tão limitada, tão pequena. Eu sinto isso aumentando diariamente. Vivemos numa redoma, na verdade. Eu quero ter medo de algo autenticamente desconhecido. Algo sobre o qual eu nunca li.

Eu bem sei que na época desses caras eu já seria um ancião para vivenciar uma aventura dessas. Aos doze anos você já podia ficar bêbado e ver todo mundo fazendo sexo em suas cabanas. Era uma época bem horrível, honestamente. Mas eu não resisto e saio de 475 A.D. para o ano 4.014 me perguntando se há algum carinha jogado em algum quarto pensando em como deveria ser a vida de um músico gay no Rio de Janeiro de 2014. Eles levavam tantos minutos até o centro da cidade, ele pensaria. Olha essas camisas xadrez, que engraçadas. E eles se banhavam nessas águas, talvez riam. Fios e cabos por todas as partes! E as pessoas fariam festas temáticas se fantasiando com base na nossa concepção de extraterrestres e em pessoas como eu, e talvez alguns desses meus escritos acabassem num museu ou numa universidade. Vai saber.

No fim do dia, o que mais me derruba não é nem a febre. 

É o tempo, mesmo. E nossa capacidade de ainda tentar lutar contra ele.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Friday the 13th



Eu estou aqui na praça de alimentação do meu bom e velho shopping te esperando com o celular na mão e a cara de quem esconde algo que pode ser tanto um beijo quanto a pior notícia do mundo. Tem um casal ali que, fosse isso aqui um livro, seria o foreshadowing desse nosso capítulo. Ele está focado na comida, falando algo por alto. Julgando pelas aparências, ele poderia estar falando de qualquer coisa chata da vida. Talvez sobre os tipos de parafusos utilizados em construções marítimas, talvez sobre a reprodução das abelhas. Pouco importa para ela. Seus olhos estão sorrindo o tempo todo, e ela não tem noção do quão não relevante seus olhos parecem ser para ele. Minha vontade é de levantar e mandar ela acordar. Gritar que isso que ela está vivendo é uma ilusão vazia e que alguém tem que ser muito imbecil para acreditar em algo do tipo. Eu quero fazer isso. Eu, de todas as pessoas. Chega a ser ridículo. Até as pilastras devem notar: Rique, o estranho, espiando estranhos no shopping e julgando atitudes relacionadas ao coração, quando na verdade... 

Bom, tiro o foco deles para confessar que vim mais arrumado que de costume porque entendo o tom solene de nosso encontro. E trago más notícias.

Me encontro agora entre as tais pilastras desse shopping. Estruturas que me viram passear com meus pais quando eu era pequeno e me contentava em criar histórias fantásticas sobre os magos de gesso da lojinha do primeiro piso. Essas paredes aqui me viram comprar inúmeras promoções do McDonald’s por R$4,95 e curtir minhas tardes de cinema sozinho depois da escola. Homens não existiam para mim lá trás, essas vitrines sabem. E essas mesmas pilastras e paredes viram eu me encontrar com um grande amigo meu para dizer que não estava afim da garota dele porque na verdade eu era gay, e atrás dessas mesmas pilastras eu me escondia com a galera descolada que se autoafirmava pro mundo como eu. E daqui eu já espiei tantos fantasmas da minha vida que você ficaria chocado. Pena que hoje o espiado sou eu.

Essas paredes estão esperando você chegar também. Me olham como juízes num tribunal cruel do qual todos sabem a sentença. E esse frio na barriga não vai passar; e eu vou ficar vermelho de vergonha quando as pessoas ao redor olharem para nossa mesa por conta da sua mão direita e seus passos furiosos.

Hoje essas paredes e essas pessoas vão ver você me deixar pra trás depois de dar um murro na mesa e sair cuspindo fogo e derramando lágrimas. Você vai se levantar e andar sem saber que onde você vê deboche há na verdade caos. Um verdadeiro desastre disfarçado de homem. Tenho aqui atrás desses olhos secos um universo inteiro secretamente em colapso, chocando planetas e oceanos uns contra os outros. E rostos e trovões... Tudo isso atrás de um sorriso sem graça. É que eu rio quando estou nervoso.

Eu quero que você saiba que esse meu silêncio não é apenas pavor de lidar com conflitos. Meu silêncio até agora, o fato de eu não ter te deixado... Tudo isso é a forma que encontrei de tentar te amar. De não te perder, apesar de tudo que eu realmente sinto. Apesar do monstro que tenho tentado domar há mais de um ano. E quero que você entenda que a impotência diante dos seus passos é maior que a gente e nossos sonhos adolescentes. E que ser adulto é isso. Nossa imobilidade diante desse quadro borrado é muito maior que nossos corações ou as árvores de seu país. Somos ínfimos diante disso tudo. Nomes que somem em um clique. Não há murro em mesa ou ponta de faca que controle meu coração, lindo. Nem mesmo essas lagrimas de uma terra tão distante que abriga florestas e vulcões, diante do pacífico. Eu sempre quis explorar o pacífico. E provar parte das águas dele na sua pele foi um sonho, sim. E como todo sonho que se preza, as ondas desse aqui acabaram de me trazer às areias da minha realidade. Eu me conheço. Posso sangrar e esgotar minhas lagrimas, posso ser um monstro nojento ou apenas um babaca – fair enough. Mas enquanto estiver seguindo meu coração, sei que estou no caminho certo. Instinto ou burrice? Um dia descubro.

Quero que saiba que alguém como você, rapaz, a gente só encontra umas duas vezes na vida. E por isso você merece mais que eu. Você não está aqui para ser a minha tentativa de esquece-lo. É tão simples que dói. É um corte, mesmo. Desses silenciosos que doem e sangram vários segundos depois de provar nossa carne. E é estranho pensar que o mundo gira normalmente agora, por mais que todos nós estejamos absolutamente quebrados e esgotados. Você entrando em erupções por mim, eu domando mares por ele; e ele completamente alheio a mim. A nós dois. Ou nós três. Essa vida é muito escrota. Dia desses li um livro fantástico que falava sobre isso. E até agora – especialmente agora - não sei se me sinto inspirado ou humilhado pela grandiosidade do universo e sua a notável capacidade de carry on independentemente da gente. Pois que o universo continue a nos ignorar. Os erros persistem, com ou sem a atenção dele. E os corações seguem partidos.

Típico de mim, sempre tão doce e estranhamente sedutor, estraçalhar corações assim. Síndrome de quem já foi patinho feio. Venham, tolos apaixonados. Tentem se salvar em minha falsa pose e depois lidem com o veneno e as cicatrizes. Eu vou tentar me salvar também. Somos todos egoístas no fim do dia, querendo apenas fugir desse grande naufrágio que é acreditar que precisamos ter alguém. Eu estou olhando para essas pilastras, aceitando essa nova ferida com falsa dignidade.

Elas me encaram com a indiferença de quem não tem nada a ver com isso, mas me espiam para terem certeza de que estou pensando o que estou pensando. E eu penso que, apesar das suas lagrimas cortantes e das mãos pesadas que não vou mais sentir em minhas costas, o gosto amargo de nosso ponto final não está no fato de estarmos numa sexta-feira 13, ou na lua cheia que vai despontar no céu em três horas.

Essas pilastras sabem tanto quanto eu que essa vida é escrota pra caralho; e que de todos os dias do ano que tínhamos para deixarmos nosso sonho, escolhemos o aniversário dele, o motivo supremo de eu ter tentado até aqui.

E a razão primeira de eu não te querer.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Das nossas escolhas


Essa história de culpar o tempo já deu.

Eu já estou ciente de que existem infinitos universos nos quais me desdobro em muito mais do que eu sou aqui e agora; e sim, acredito que algumas curvas temporais tendam mais à minha realidade/atualidade que outras. Ha. Me conte uma novidade. 


A questão é que nossas escolhas – pelo menos as minhas, meu caro – não são carrascos. Me recuso a vê-las como tal. Nossas escolhas são portas. Atalhos, muitas vezes acidentais, que dia sim dia não me levam a caminhos que evitam as coisas para as quais eu não estou pronto.


Com exceção da morte, anjo, tudo, tudo, tudo pode mudar. A vida se chama vida por conta desta condição. E eu vejo, eu sinto, e eu vivo a liberdade de encontrar mais à frente as portas que passaram por mim fechadas – as que deixei fechadas propositalmente. As coisas são assim. Ponto. E os corredores dessa vida podem ser todos construídos por números, porque números permeiam suas medidas e suas estruturas, seus pesos e seus equilíbrios. Seus limites. Números preenchem tudo o que me cerca, mesmo que eu nunca os tenha visto, ou tocado neles como em seus cabelos.


Acontece que os corredores da vida não são lineares, eles são fluidos; e se alteram a cada segundo, a cada tomada de ar que preenche meus pulmões. E sua ordem é constantemente alterada por palavras, porque as palavras não são apenas ventos e sons. Elas são pedaços de nós que mudam o mundo. Elas nos tocam, e nos movem e alteram tudo o que nos cerca, chegando ao ponto absurdo de destrancar as portas que deixamos fechadas no passado, trazendo-as novamente ao presente, sem chaves ou cadeados. Palavras são as mãos da nossa alma, e saber utiliza-las é saber comandar os quatro ventos e os sete mares. O tempo é pura ilusão. Não existe olhar pra trás. Apenas olhar pra frente renovando tudo que te permeia, tudo que te corta.


Eu não tenho essa fé superficial que se apoia apenas num deus. Para mim o mundo vai além da criação de um homem que quer ver seus filhos bem sem fazer nada para evitar suas lutas e suas dores. Eu tenho fé num destino que costura nossas escolhas uma a uma, como um lindo colar de pérolas. As escolhas erradas que fiz existiram para que as mais certas fossem feitas depois. Não há arrependimento, não há pena ou a amargura de nada poder ser feito. Meu mundo é guiado pela vontade e pelo carinho que os corações merecem. 


Nossas escolhas são portas, jamais demônios. Jamais rochedos eternos impenetráveis.


Acredite.

domingo, 23 de março de 2014

Porém em Ré menor


Esses aplausos e esses gritos me fazem continuar. 

E você pode ser maior que tudo que me cerca, com exceção da música que corre em minhas veias. Eu deixo memórias perderem a cor, eu deixo estrelas caírem e eu rasgo cartas que sempre sonhei em enviar, mas não deixo e nem posso deixar de tocar essas músicas,  anjo. Disso eu nunca vou abrir mão - e eu sei que você não me pediria isso. Foi só um pensamento, mesmo.

Digo isso porque eu, antes tão tímido e com medo das luzes, me encontro nesse exato momento encarando mais de mil faces, o que equivale a, sei lá, mais de dois mil olhos sobre mim. Todos com o mesmo propósito feliz, acompanhado de bocas cantando alto, e me banhando com uma energia que poucas vezes senti. Mal caibo dentro de mim, vivendo esse sonho. Meu coração agora era para ser do tamanho do mundo, cobrindo tudo que essa terra carrega. Em vez disso, ele está apenas do tamanho dessa cidade, talvez do país.

E eu sorrio um sorriso triste ao lembrar de quando eu era bem moleque e tudo o que eu fazia à tarde era me perder num labirinto de pensamentos preenchidos por plateias, luzes de palco e aplausos. Jogado em uma rede com meus CD's e meu rádio, meu maior sonho era um dia tocar o coração de quantas pessoas eu conseguisse ao mesmo tempo, os amarrando como pérolas num colar, todos unidos em um solo tocado num Barcus Berry. Que sonho tolo, ter um Barcus. E que ideia, achar que eles teriam violinos coloridos para eu pegar aquele que combinasse com as cores que carrego aqui dentro. Como era bom sonhar tanto, todo dia. Mesmo me perguntando quais seriam as chances de qualquer pessoa - eu, especialmente - conseguir tudo aquilo. 

Sei lá. Na maioria das vezes, admito, tocar corações com algumas notas não é tão desafiador para mim. Outras vezes, como a nossa, é algo impossível de se fazer, porque corações são imprevisíveis e indomáveis; e no final das contas eu acho engraçado como algumas coisas podem ser. Apenas ser.

Isso sempre me pega.

Todas essas pessoas aqui, elas cantam em gritos ferozes, com seus punhos ao alto. 
Somos piratas quebrados e felizes, sempre correndo de alguém com uma garrafa de rum na mão. Somos bardos, somos magos, somos crianças que, tragicamente, nunca crescerão. E meu coração é como aquela corda de bandolim que cisma em arrebentar todo show, noite após noite. Corda quebrada e impossível de ser trocada. Insubstituível. Só temos um coração por vida; e usa-lo de forma sábia é uma noção básica de sobrevivência, mesmo que ninguém nos avise isso. Mesmo que ninguém nos conte que fingir que não temos um coração não protege aquele que temos e escondemos.

Eu não quero desrespeitar o Universo e tudo o que ele me trouxe e me traz. Não quero desrespeitar Deus ou os Deuses - se é que eles existem. Eu na verdade sei lá o que eu quero dizer com tudo isso. Eu sei apenas que não existem palavras para descrever o que é realizar um sonho desse porte. E eu reconheço isso e com toda humildade que encontro nas minhas células eu agradeço às estrelas que sempre me seguiram.  À minha avó e seu piano. Ao acordeão velho no quarto do meio. Aos meus pais, que saíram de um conto de fadas.

Só que há um porém. E ah, meu caro, eu nunca subestimei a fúria de um porém. O poder de um quase. Esse poder que interrompe a melodia de sonho sonhado há eras. Nunca diminui o tamanho de um se.

Há um porém que carrego comigo a partir dessa música. Um porém que dilacera todas as praias que banham meu coração, lançando suas águas em maremoto contra todos os continentes leves que carrego em mim, com suas fronteiras infinitas e suas florestas e cavernas e clareiras. Todo meu mundo interior é virado ao avesso, saqueado e tomado por esse cataclismo que tenho carregado feito um pingente. Esse porém existe selvagem e silencioso em um lugar que, vazio e silente, deveria acomodar as coisas mais lindas que já senti.

Mil, dois mil, cinquenta milhões de corações seguindo o ritmo do meu pé esquerdo numa jig não se comparariam a olhar nos seus olhos e ouvir o som de nós dois. Eu acho que esse silêncio vai me seguir de palco em palco eternamente, cativando para sempre esse lugar vazio. Esse lugar onde nada cabe. Esse lugar que grita por um nome que evito ouvir, numa negação que  quase me faz não compreender esses longos faróis que tem me seguido desde que isso tudo começou; Luzes verdes, roxas, vermelhas. E cabos, cabos, cabos e mais cabos. E mais luzes. E pessoas e seus olhos e seus gritos maravilhosos. Eu deveria me sentir um rei.

Ainda assim, me sinto como se estivesse em meu próprio quarto, sozinho com a chuva que chove em mim, querendo ser ouvido por alguém que mora longe do meu prédio. E não é engraçado como a solidão de dentro esvazia todo e qualquer lugar por onde nosso coração passa batendo? É como se as luzes se apagassem pelos postes.

Eu acho que eu poderia tocar para a realeza dos reinos mais imponentes. E eu poderia encantar nações com algumas cordas e mover planetas com meus dedos. Eu poderia ser senhor dessa vida, eu gosto de pensar. Ainda assim, dia após dia, eu não consigo - e nem conseguirei, honestamente - não ser arrebatado pelas atrocidades que um amor e um porém podem florecer e oferecer.

Mas esses aplausos e esses gritos me fazem continuar.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Carnaval


- ... Achei que ele tinha voltado pra árvore mágica.

Nunca pensei que ouviria essas palavras numa conversa séria, mas aqui estou. Acabei de passar os olhos nesta frase e, realmente, é um daqueles momentos em que a vida nos mostra que temos sim, pelo menos, um pouco de sorte. Temos sempre onde nos segurar.

Eu e meus amigos: todos quebrados, todos estranhos, todos bizarros. Temos vodka e sprite - nada de vinhos caros. Somos todos contra coisas atrozes como o machismo e as pessoas babacas que preenchem essa cidade e esse país. Esse mundo, meu caro, esse mundo é nosso. Mesmo que nos digam que somos um bando de destrambelhados. We might be hollow but we're brave.

Temos uma árvore mágica protegida por um mini-cercado que me lembra os arames da jaula do T-rex em Jurassic Park. Temos palavras nossas - nossa própria língua - e nossos risos e gritos e canções. Temos nossa própria felicidade. E meu coração manchado parece intocado quando estou perto deles. Ah, e temos uma Rata, amiga nossa.

E a luz dos postes são como pequenas lâmpadas natalinas para nós, e nos embalam em baladas circulares. E giramos na calçada como feiticeiros em rituais e casualmente largamos uns aos outros para sair em turnês de vinte minutos preenchidas por beijos e corpos que nos cativam.

Nos afogamos nos lábios de garotos que caem perdidamente apaixonados por nós; e os largamos para trás com suas bocas marcadas e seus suores noturnos. Rimos sem parar, como se estivéssemos nos vingando do mundo inteiro por tudo que ouvimos desde sempre.

Rimos alto até a hora de ir à praia. E voltamos para nossas casas lá longe ao som de mais risos e pequenos refrões. Às vezes em conversas que vão desde as camadas polares de uma das luas de Júpiter aos papos depravados sobre sexo com taxistas.

Dormimos por 5 horas e despertamos  para comer pizza, cansados e felizes.

A primeira música toca e estamos prontos para anoitecer à nossa maneira mais uma vez. 
Sempre.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Sobre Montanhas e Palavras



Esta noite movi montanhas por você. Montanhas descomunais e invisíveis, dentro de mim.

As movi porque não consegui fincar meus pés no chão, e tudo o que eu queria era voar  - o que por hora é impossível - me deixando como única escolha correr dali, fugir daquelas bocas e daquelas mãos em que me lancei nessa tentativa de fuga inútil. E digo inútil porque correr dali não seria correr de você, mas para você. Como quis correr até sua boca, e aprender a escalar suas paredes, explorar suas cordilheiras e desvendar seus rios. Falar tua língua e te olhar nos olhos.
Quanto mais bebia, mais rápido eu andava. Mais eu corria para dentro de mim mesmo, desesperado para mover as montanhas que me segurariam.
Quis correr dali, largar todos pra trás e enfrentar os ladrões da esquina, o metrô da madrugada, os bêbados, os mascarados... E aparecer lá. 

Que bobo, né.

Mas não iria até lá para te beijar, nem para ter uma conversa boa - tenho noção - mas para te ver, assim mesmo, de longe. Apenas te ver. Mostrar que estou nessa luta. Queria apenas te ver e provar que posso ir aonde você for. Sempre. Mas me disseram que não. 

Ouvi que se você quisesse me dedicar poesias ao pé do ouvido você já o teria feito; e que seu silêncio é maior que tudo isso aqui. Maior que a gente.
Me disseram que acabou, que perdi e que eu não me amo o suficiente. Que se te ver de longe é tudo que posso ter, estou vivendo de migalhas. Me disseram que você não quer me ver e que meu tempo está indo pelo ralo. Ouvi que já deu. Que está escroto. Que preciso aceitar que a vida é isso aí. Que a gente perde mesmo e temos que engolir a seco e crescer. Ouvi que os filmes me fizeram assim; e apesar de tudo isso fazer um sentido perfeito, eu ainda sinto falta de um bom motivo para largar o restinho de perfume seu que carrego até hoje aqui dentro.

Essa noite palavras levaram meus suspiros embora. Os assopraram para longe um a um, derrubando cada flor invisível que imaginei para você. Palavra por palavra. Por um momento tudo foi embora, menos as montanhas. 

Elas estavam aqui dentro, em algum lugar. E as movi de forma que meus pés se fincassem no chão, e preso fiquei. Com o mundo se virando em mim. Acho que hoje encontrei forças para desistir de você - mesmo que por um dia - e teoricamente eu deveria me sentir bem.

Mas não.

Destruir um sonho e agir pelo seu bem. Perder o amor próprio. A linha é tênue assim?

Eu acho que ainda vivo num mundo em que lutar por coisas bonitas e reais vale a pena.


Você é uma delas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Lovely day

Essa é a terceira semana desde a volta das férias e, pela primeira vez, provavelmente em toda a minha vida, eu quero que tudo se foda. Tudo.

Foda-se mercúrio e essa mania de ser retrógrado. Foda-se marte em vênus ou seja lá o movimento que for que venha me prometer alívio. Que a maluca que me alimenta com essas coisas exploda em Urano. Que venha o inferno que for. Estou pronto.

Quero que meu salário se foda, que meu trabalho se foda. E pouco me importa se vão aprender a porra da voz passiva ou a caralha do presente perfect. Eu. não. ligo.

Quero que as reels e as jigs e a porra do Paddy's day se fodam. E todos os melhores violinistas do planeta podem estar aqui no país, na cidade ou na porra do meu bairro. Eu não ligo e não poderia me importar menos. Podem bater à minha porta - derruba-la, se for o caso - não movo um fio de cabelo em direção alguma. E nem é por falta de força - se trata precisamente do contrário.

E ligo menos ainda para você. E quero que você, mais que tudo isso, se foda.
Se foda e  leve contigo esse poder incrível de simplesmente ignorar o mundo que dediquei à você. Ou o mundo em si. Aliás, que esse mundo se foda também.

E estou aqui puxando essas placas, me lançando nesses ferros com uma fúria que poucas  vezes vi em mim. E tudo que eu consigo pensar é que para isso sim, eu ligo. Eu estou pouco me fodendo para você e seu olhar cínico. E pouco me importa se o próximo show da banda vai lotar ou não, se vou ganhar dinheiro ou não. Se esse cabelo ridículo vai crescer ou cair. Foda-se se tenho cabelos brancos. E que se foda também esse calor escroto, os babacas do francês, os memes, Bolsonaro e toda a corja de homofóbicos que enchem esse país. Que morram. E pouco me importa o almoço de hoje, a ausência da minha voz e a bateria do celular. Quero mais é que se foda.

Me moldo a ferro e sal. Fogo e suor.
Dessa vez eu vou destruir, meu amigo, porque a raiva às vezes alimenta também.
E hoje, fora isso, quero mais é que se foda.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Torpor


Entorpecido, mergulhado em águas russas, afundo nas cobertas para deixar o que resta da noite para trás. A tontura temperada com saudades aleatórias me impede de segurar toda a correnteza prestes a perder o controle. Um gesto é tudo o que ocorre; Minha própria mão momentaneamente mostrando um flash das minhas verdadeiras cores, sempre tão bem guardadas. Uma fraqueza tola, entregando tanto por nada. Não é estranho quando nossos feitiços não surtam efeito?

Encantos, gestos, palavras e hinos navegando para fora de meus olhos em direção ao mundo, em vão. Quem reconheceria esses cantos desbotados?

Vidros, copos, ventos e vozes ao longe. Aqui, o pensamento de que sim, estou caído e derrotado. Perfeitamente humano. Penso na coerência da Imperfeição e decido, com o maior ato de ousadia do mundo, carregar um belo e sonoro perfeito tatuado no peito. Perfeito sim, do alto de minhas convicções estranhas a vocês. Perfeito, só para provocar o mundo por estar perdido nessa insanidade passageira - mas tão real.

Ah, já se foi o tempo em que talvez fosse possível moldar tudo isso que carrego em mim para que eu crescesse em outra direção. Talvez já tenha havido a chance de deixar essa essência estranha guardada lá no fundo, como um oceano secreto e assustadoramente silente. Talvez.

Essa tormenta é doce, porém constante; e no fim do dia ainda me pergunto: quem vai navegá-la, afinal?


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Bound to Get Burned


Despertar com a voz dela no ipod é quase como ouvir a sua própria voz depois de um ano e um mês. Talvez por isso eu tenha acordado. Como sempre, repetir a música é uma tentativa de me apropriar de suas canções e, consequentemente, me sentir mais perto de você. Tática tola... Hoje nem faz sol, então te sinto mais distante ainda. Como se houvesse uma galáxia entre a gente. Normalmente eu me sentiria bobo, mas deixei de me importar com isso faz tempo. Vai entender.

Está tudo tão claro aqui que alguém poderia acusar artificialidade nessa luz. Essas janelas são enormes e esse cinza quase branco do céu reflete em tudo, como uma sala de hospital. O ônibus inteiro parece brilhar nessa luz escondida das 10:45 da manhã, principalmente esse meu casaco. Ele é da mesma cor disso tudo - desse céu, principalmente, o que me torna parte dele. Me sinto esticar, crescer, voar... Vejo tudo lá de cima. Sou o céu inteiro e é engraçado, isso. Como eu sempre achei que ser o céu seria algo grandioso. Mas me sinto vazio. Falta algo. Falta um.

A escola de circo atrás daquela estação ali me faz te esquecer momentaneamente e pensar na trança que escorre pelo meu pescoço. Não me arrependo de minhas escolhas, eu as amo de mais para isso. Mas a dor persiste, porque cada escolha minha, cada fio meu de cabelo, me afasta de você - uma das poucas escolhas que fiz que não dependeram só de mim. Olho para as roupas justas e para os malabares e penso numa época em que fugir com um circo era um ato de boemia romântica e aventureira, não mais uma rota perdida para artistas eternamente decadentes, escondida embaixo dessa imensidão cinza.

Sim, eu sou muito estranho. Eu vejo todas essas nuvens - exatamente nesse asfalto molhado - e sou interrompido por golpes violentos de pedaços de pensamentos. Uma bola arremessada. Pessoas aos montes e Ipanema ardendo em 50º numa tarde de janeiro. Seu rosto sério, seus passos leves, mas decididos... Sons e pedaços de conversas - suas frases. O mundo inteiro nesse momento é uma afronta a você e seus dias de sol, certo? Tento imaginar sua voz culpando bem baixinho a vida por esse tempo, fazendo suas contas astronômicas e desejando o sol com força, mesmo sabendo que todo esse brilho existe porque ele está ali, atrás das minhas nuvens. Tenho tanta inveja desse tal de sol. Sempre quente, forte e decido. A nota perfeita para a  canção vermelha que é essa cidade e suas maravilhas, sempre tocando em cada parte do seu corpo, escorrendo com sal e areia ardente. Perfeição. Esse misto de raiva e tristeza encontra conforto nesse meu cinza. Ele é uma ofensa a você e seu calor - como um falso xeque-mate que me sacia momentaneamente. E eu não sei, talvez eu espere que você, ao fugir dessas gotas e ignorar essas nuvens, lembre de mim. Ainda que não com a mesma força de antes. Essa força que eu desejo a cada dia, irmã dessa vontade de poder controlar quem eu sou e mudar cores sobre as quais não tenho controle algum. Essa vontade de virar sol  e mar; areia e sal - tudo isso que você tanto ama.

Tento pensar que apesar de nossos diferentes tempos e céus, somos todos pessoas normais e o mundo nos dá sempre as mesmas chances. Penso que o tempo pode virar ao meu favor para que sigamos com ao menos um dia normal, sei lá, talvez um com muito sol e uma bela chuva de verão ao fim, abrindo uma noite estrelada. Mas então eu me dou conta de que ninguém - ninguém mesmo - que é considerado normal, usa um casaco tão da cor do céu a ponto de se fundir com ele assim, dentro de um ônibus numa manhã chuvosa.

E daí eu desisto mais uma vez.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vênus em Gêmeos


Esse vento frio vem diretamente de um ano atrás, como um amargo tapa em meu rosto. Eu me recuso a transparecer que me dou conta do mesmo. Sigo em frente com o falso orgulho mais sedutor e convincente que já existiu. Aquela velha arte de ocultar furacões e tempestades. Eu me recuso. E o faço porque não deveríamos sentir aquilo que  nada significa. Aquilo que não há. Não faz sentido sentir, com tanta força, algo que simplesmente não é. O vazio não deveria ocupar tanto espaço, tomando lugares que eu nem sabia que existiam em mim. O que não existe não deveria causar tanto peso. Tanta dor.

Mas eu o sinto, e eu sei que é você, ainda que tão perto, a anos-luz de mim... Eternamente concreto em palavras direcionadas a alguém que não concebe a sorte que é te ter, vivendo num mundo tão não meu. Entoando melodias que embalam outras noites com sorrisos e conversas que não me dizem respeito, mas agem, uma a uma, como uma antítese eterna e cíclica  ao meu coração e minhas próprias noites. Minhas noites... Todas abatidas, uma a uma, pelas suas luas - seus silenciosos soldados - inocentes e delicados. Pisando em flores invisíveis a eles.

Me resta a resignação. E meu reflexo primeiro é dizer que esta vida é injusta, que as pessoas são idiotas e que o que eu espero do mundo deveria ser pouco diante de tudo o que eu vejo acontecer; de todas essas pessoas realizando seus sonhos tão grandiosos e dourados sem ao menos sentir, sequer por uma vez,  metade da força com que eu te sinto.

Me resta a esperança de fugir desse vazio que você deixou, que apesar de ser parte de você, mancha meu céu e reduz Vênus em gêmeos a nada, me fazendo desistir, sim. Mas do quê? Daquilo que não existe e talvez, apenas talvez, jamais tenha existido.

Ainda que por um dia, meu caro, não lutar contra as ondas de sua ausência seria o melhor sonho. E eu não teria que te ter apenas em textos sem nexo ou canções secretas.

Seria a paz que nunca tive.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre Cores e Formas


Eu já havia visto que por mais que eu tentasse, a luz que eu antes via não estava mais ali. Se a culpa é sua ou minha, não sei. Você tem suas razões - suas próprias cores.

Mas eu posso falar por mim; e aviso que levei anos, meu amigo, construindo quem eu sou. Mas não para me adaptar ao mundo que me cerca. A forma que tomei ao longo dos anos veio apesar dele, passando por cima de quem não se esforça para questionar certas coisas do coração e da vida. Não é fácil... E eu não nego que havia aí dentro de você algo a mais. Uma inocência, uma bondade de quem vem de longe. Algo tão frágil que me encantou tanto, a ponto de crescer e ameaçar todo o universo que te cerca. Eu sempre tive noção das consequências. E honestamente, quem se importou? Nem eu, nem você. E no fim das contas, eu acho que você quer esse silêncio. Eu sei que você precisa extinguir isso tudo, junto com toda a avalanche que seria causada por nós. Mas você me escuta incrédulo como se eu fosse um louco e eu te enxergo genuinamente como um cego. Seguimos assim, ambos presos em cordões que nos puxam em direções diferentes. Para mim é tão óbvio. Por quê?

Eu procuro luzes em olhos alheios, confesso. Quero magia em abraços e feitiços em toques... É como as coisas precisam ser para mim. É uma tirania sobre a qual não tenho controle.
Sempre em vão, com o olhar perdido. Eu disfarço, mas não fujo.
Torto de mais, preso numa redoma que eu mesmo criei para mim. Não nego nada disso. E talvez a culpa seja minha, sim, por jogar a obrigação de aceitar quem eu sou em suas mãos ou em quem quer que seja. Talvez eu devesse medir mais o peso disso, mas não me arrependo. E sei que o que busco está em algum lugar próximo e não demora a vir.

Ainda assim, sejamos honestos: se eu enxergo, mesmo que por um milésimo de segundo, uma ínfima faísca da luz que procuro, eu me agarro com força e faço o possível para que o clarão que busco exploda em cores leves e lindas.

Só não me peça para afogar aquilo que é naturalmente mágico, por menor que seja.
Com isso, meu caro, não sujarei minhas mãos.


quarta-feira, 21 de março de 2012

O Menos Etéreo (ou o 6º sobre aquele tema...)


E aí que hoje - ainda agora mesmo - eu estava lendo o tumblr secreto de um amigo e apesar de já ter lido vários de seus posts, só agora, ao ler a descrição por acidente, percebi que ele diz que criou aquele espaço para falar do amor. Achei fantástico. Me identifiquei, na verdade. Essa coisa de se "assumir" apaixonado pelo amor. As pessoas confessam isso como um crime. As pessoas julgam quem é assim como se isso fosse o pior dos crimes. Como acreditar em lendas idiotas, por exemplo.

Aí como eu, que já estava inclinado a passar por aqui hoje pela mesma razão (aliás, percebam que até eu, que posto apenas uma ou duas vezes por mês, no máximo, me repeti neste mesmo tema - o temido/desejado/mal falado/sonhado/eternamente odiado amor - nos meus últimos o quê, cinco posts?) terminei por ficar inspirado e despenquei pra cá para chorar pela vida. Homenagem ao meu amigo, talvez. Ou só mais uma desculpa pra cuspir tudo isso em algum lugar. Típico.

Pois é. Acho que eu ter vestido rosa no réveillon só serviu para deixar o tema mais presente na minha vida, mas não o objeto do tema em si. E a coisa ficou e tem ficado cada vez tão mais concreta que até este espaço, até então reservado aos meus devaneios variados, sempre tão "misteriosos e circulares", entrou na dança. And I don't really give a damn. Já até escrevi no diário à mão (amo diários à mão) e a coisa não se resolveu. Então foda-se, né? Pé no chão e cara na lama. Sem escrita pseudo-sofisticada, dessa vez.

E o fato é que hoje foi dia de descobrir que quem eu tinha como uma escolha, me tem como opção. Como uma dentre outras opções, na verdade. Algumas até tão bonitas a ponto de eu me machucar. rs E eu nem fiquei arrasado, como no carnaval, em que também chorei por ele. Eu acho que estou começando, só agora, depois de tanto tempo, a ficar dormente para esta falta de qualquer coisa que cisma em (não?) acontecer. E não posso nem reclamar porque, né? Não sou namorado dele. Na verdade eu mal sou um ficante dele... Mas sei lá, cara. Quando você está há mais de um mês falando com uma pessoa, e vocês se falam todo dia mesmo; e ficam falando de sonhos, compartilhando histórias e flertes e piadas... E torcendo um pelo outro, de forma natural, sem estar apaixonado. Apenas... Gostando muito, sentindo um carinho e, vez ou outra, saudade. Sei lá! Eu, particularmente, não sei dar abertura a outro alguém quando me encontro numa história assim.

É como se eu me traísse, ou traísse a primeira pessoa. Mas ele não é obrigado a ser assim. Nunca combinamos nada e nada nunca foi arranjado. Rótulos atrapalham a sociedade, certo? That's what they say. E antes do cristianismo a poligamia era algo extremamente comum e aceitável, ao contrário da nossa sociedade atual, tão ligada à labels e classificações.

E o sentimento de perda? E a impotência diante de outro coração? E o ciume? Será que estes rótulos também vieram com o cristianismo? Ou estiveram sempre por aqui, apertados, crus e guturais, como o amor e o ódio e todos os sentimentos humanos que nos definem? Mas vamos lá, culpemos a sociedade, o capitalismo, o cristianismo, a faixa etária ou o caralho a quatro...

Cada um sente o que sente e a corda tem que estourar para um lado. Vai doer a quem doer e o sangue derramado é responsabilidade apenas daquele que se deixou levar e acreditar.

Todas estas facadas são minhas e de mais ninguém. Quem sai ileso é sábio e mais forte. Está apto.

Sobrevive.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Masquerade


Então eu fui pra perto dos meus amigos, só para estar perto deles e ver se me animava, mas apenas sentei e comecei a chorar num canto, atrás de uma árvore. E tudo que eu tentava me dizer era que estávamos em pleno carnaval. No Rio de Janeiro. Na última noite.

Eu não quero soar como alguém que além de generalizar cegamente, se sente acima de todos, ou melhor que a maioria. Eu quero deixar claro que estou falando de uma forma geral, consciente das exceções e das possibilidades que a vida oferece. Escrevo de um lugar ao qual cheguei após anos de caminhada na direção de um sonho que parece não se realizar nunca. O problema? Eu sonho com um graaaaande amor. Não, eu não quero um namoradinho, nem quero alguém pra me dar uns pegas vez ou outra. Eu quero um grande amor. Desses que abalam nosso mundo, que botam tudo ao avesso, que nos descabelam na rua e nos fazem sorrir por nada e para o nada... ao serem correspondidos. Desses que se encaixam em toda e qualquer música que bate em seus ouvidos. E por que isso é um problema? Porque eu sou gay. E sinto e vejo dificuldade e instabilidade nas relações deste universinho fútil e vazio que é o meio GLS. Todos pregando a pluralidade, todos lutando pela diferença, mas sempre focados em coisas tão fúteis e vazias.

Também não quero soar como alguém que vive em torno disso. Somos todos seres plurais, vivendo em um mundo plural. Temos muitas dimensões e diferentes profundidades e cores em nossas mentes e corações. Algumas coisas nos prendem mais que as outras, tudo em momentos diferentes; e isto aqui é uma pedra em meu sapato já há algum tempo. E tipo, sentar e encarar isso levou muito tempo. Nem é fácil porque, veja bem, sonhos não foram feitos para serem pedras em sapatos. Sonhos foram feitos para serem nosso combustível. E afirmo isso sem cansar. E mesmo que todo dia me digam que o mundo não é um lugar mágico e que a vida não é um conto de fadas, eu ainda me apego ao poder de um às vezes e continuo amando a grandiosidade (e ao mesmo tempo prisão) do quem sabe.

Pois bem. Eu sempre fui esquisitinho. Meus gostos são, 98% das vezes, minoria em todo e qualquer círculo social no qual eu esteja inserido. E isso também se aplica aos gostos, digamos... físicos e/ou interpessoais. Eu não tenho um perfil específico que me atraia. Eu gosto de pessoas diferentes de mim. Amo pessoas apaixonadas e apaixonantes. E gosto de ouvir suas histórias e escutar seus sonhos e rir de seus micos e gafes e piadas. E amo fazê-las rir, também, mas para isso precisamos nos aproximar, darmos abertura para tal. E a gente não encontra isso em lugar algum. E é foda ser minoria no meio de um grupo que, por si só, já é uma minoria. Tá, eu estou longe de ser a pessoa mais aberta do mundo, mas quando eu tinha 18 anos e pisei sem medo no maravilhoso mundo das diversidades sexuais, eu o fiz acreditando em pessoas, não em corpos. E o que se faz quando você é, de certa forma, discriminado (ou ignorado) dentro de seu próprio "gueto"? A resposta me parece ser uma só: ceder à pressão.

Bem, o que quero dizer é que nos últimos dois dias eu, que há uns bons anos tenho orgulho de ser gay, me peguei com vergonha de ser quem eu sou, e desejei que tudo que existe a minha volta não existisse. Tive vergonha de tudo que me atravessa, de tudo que me constrói. Me peguei olhando torto para mim mesmo por sonhar em viver um amor verdadeiro e tranquilo sem me preocupar em ser trocado ou abandonado pelo primeiro saradinho/modernoso que surgir à minha frente. Sem me sentir ameaçado por toda a orda de gays que se matam diariamente na academia para ser uma dessas "ameaças" aos casais. Pior ainda, me envergonhei por ter feito exatamente isso nos últimos meses só para viver esses dias de carnaval sendo alguém mais gostoso, mais agradável aos olhos de todos esses caras que pensam tão diferente de mim. Me envergonhei - simultaneamente, vejam que conflito divertido - por estar ali pensando em um amor que dure para sempre. Me senti hipócrita, porque eu mesmo finalmente cedi à pressão de modificar meu próprio corpo para que isto - esse sonho - se torne algo mais possível e chorei, como nunca chorei na frente de ninguém, por ter falhado. Falhei em quê? Em fazer alguém se apaixonar por mim? Sim. E por não respeitar o momento dos outros, porque eu mesmo já tive o meu momento de sair apenas para beber e beijar pessoas. Chorei por não ter encontrado o amor da minha vida em dois meses e por ter teoricamente levado um perdido no meio da fuça. E a verdade é que dar perdidos e pegar pessoas aleatórias é, afinal, quase uma consequência natural para alguém que passa a vida repreendendo essas coisas. O problema aqui é que, há um bom tempo, tenho a impressão de que as pessoas não saem nunca dessa fase.

E eu fiquei com vergonha de ser parte de um mundo onde, para ter direito a uma boa conversa com alguém, eu precise chamar a atenção dele tirando a camisa, ou exibindo músculos. Sim, você vai me dizer que não é apenas assim, que conhece várias pessoas "feias" ou "estranhas" que encontraram o amor em outras pessoas, sejam estas lindas ou mais ou menos. E eu não nego que sempre curti uma pessoa fora do padrão. O não-óbvio me atrai absurdamente... Mas até mesmo a não-obviedade está até certo ponto impregnada com estes malditos valores. E por mais que meus amigos vivam jogando na minha cara que meu gosto é estranho (e eu até certo ponto sinta orgulho de mim mesmo por isso - como se eu quebrasse os padrões), o meu ponto é que estas pessoas, estes casais, são exceções. No final do dia todo mundo está sozinho (mesmo os ditos gatões) e todos ficam sozinhos e se pegando de forma aleatória e desordenada. E o que eu vejo em boates se repete em interfaces virtuais, sites de relacionamento e aplicativos... Todos os meios sociais teoricamente propícios para eu encontrar um companheiro vão de encontro a este meu desejo. E eu sempre repudiei isto. Principalmente hoje, quando eu olhei para mim mesmo e encontrei tais valores em mim. Me dei conta de que tenho me tornado mais um deles em vez de ressaltar quem eu realmente sou - ou sempre fui até aqui. Essa coisa de querer estar no topo dacadeia alimentar. Se eu realmente estivesse feliz comigo mesmo hoje, como eu estava lá, aos 18 anos, entrando pela primeira vez em uma boate, nada disso estaria ocorrendo.

Me dei conta de que considerei desistir do meu curso de francês (e caralho, como eu amo estudar meu francês!) para ter tempo para uma academia. Simplesmente porque saber francês infelizmente não vai fazer ninguém me notar. E é aí que a vergonha volta com o pé na porta e me pergunta porque você quer ser notado? - mas eu já sou notado. Notado por ficar quieto, notado por fazer isso, por vestir aquilo outro ou deixar de fazer sei lá o quê. E em termos de ser notado, o máximo que atinjo é o meu eterno - e putaqueopariu, que eterno - posto de amigo fofo. E meu amigo, deixa eu te falar uma coisa que é o X da questão: ser fofo, neste mundo, é tão útil quanto ser uma almofada. Ainda mais se alguém sexy está ao seu lado. E aí concluímos que o que eu quero nesse pseudo-pero-no-mucho-pseudo-drama é ser desejado. Ué, e não vale a pena ser quem você é e estar feliz com isso e atrair as pessoas através de seu verdadeiro eu? A resposta é não. Pelo menos não quando você é gay. Não quando você é gay - e fofo - numa cidade solar e sarada como o Rio de Janeiro. Os standards são extremamente altos e por mais que você lute, você reproduz esta... coisa; e se pega também não considerando, não dando abertura para quem não está naquele padrão maravilhosamente agradável e simétrico que é um homem minimamente "sarado". E se o faz é simplesmente por um casinho rápido, uma ficadinha de nada, só para não sair no zero a zero.

E aí você, que sempre saía à noite na esperança de encontrar alguém legal, se pega preso num círculo vicioso ridículo de achar que sempre pode conseguir algo melhor. É ou não é para ficar com vergonha? O certo seria gostar das pessoas por tudo que elas são. Seria viver bem com meu corpo e não depender de músculos para conseguir certa aceitação num meio que já não é muito bem aceito em nossa sociedade. E isso pode acontecer. Isso - essa abertura ao que está dentro - acontece, de fato. Acontece, sim, mas primeiro olhamos para a casca e gente, no "mundo gay" a intensidade disso é elevada exponencialmente e só agora, infelizmente, eu aceitei isso. Existem lugares em que você literalmente não existe se não tirar sua camisa e mostrar seu corpo esculpido. Isso é patético. E eu sinto vergonha de estar há mais de um mês sofrendo numa academia para poder ser notado e conseguir minimamente - e eu digo minimamente porque eu não pretendo tirar a camisa em locais que não sejam uma praia ou uma piscina rs - aumentar minhas chances de chamar atenção de quem? De outras pessoas também assim.

É confuso.

E no final do dia, além de voltarmos para a premissa básica da humanidade (que para mim é: músicas tristes sempre serão as melhores) a questão persiste: ser ou não ser?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

When dreams won't do


"Journeys end in lovers meeting."
Shakespeare

And as I close the songmeanings page once open on "Black Balloon" I feel sadder than before. I like this song because of those beautiful lines that go about 'the lies they always told you, and the love you never knew..."- This is a song about drugs, afterall; therefore I can realize that it's not about us. I mean, it's not about us, but I could fucking swear those lines were written to me. It's the story of my life. Or at least the story of my loveless-love-life. Something like an epilogue. What a load of crap, right? There are no songs about me. Or you. Or us. And as I open the blank page in which I'm going to struggle to write I can already feel that oppressive feeling in my chest, twisting in my heart. What a stupid nasty little image that of a heart being torn apart. By a feeling, you see?! A freaking feeling the has grown so freakishly strong! How romantic - in the most terrible, cheesy way. But anyhow, it's here and it's true. Can you feel the power of the word true? I knew it was true the very first time I caught myself actually paying attention to a conversation about nano-technology used in solar reactors in order to produce hydrogen (and I really did get it!). No, no, no, that would be a lie. I knew it was true when I first saw you. I just didn't think, you know. You were right there, in front of me, so... simple and lovely - mesmerizing. I knew it right there, feeling so raw and bare and painfully real. The sight of you left all of my butterflies in a poisonous reverie. A beautiful storm in my chest and soul. And I close my eyes and It's all I can do to see your mouth, and that damn scar of yours screaming for my kisses. And those eyes... That won't see me.

And I cannot even blame you, see? Dude. It's all on me. I may have taken your heart for granted, as I myself took my body for granted... And whether I like it or not, we all know everything comes down to bodies, most of the times. Man, I took life for granted once again. That's how it goes for me - that's how I roll. Not always, let's be sincere. But when it comes to this, a second time is just about enough. And now I can feel tears almost coming to life on my face. Embarrassing. And I brought this on me, didn't I? Why do I keep doing this? What the actual fuck is wrong with me? Always aiming too high, always trying to reach that which is obviously not meant for my eyes. Or heart. Well, for all I know, that's it. This is the last stab I'll take with the little pride I still have. I'm done with taking chances. Was it just my imagination? I was never meant for you, then? I was never meant for this.

Damn, I did fall so bad. I have never fallen so bad. And now I need to work my way back out and up - or down! - again to the real world. I'm just never enough. I'm just... me. Regardless of how many fucking gyms I join or haircuts I get. I'm just Wrong. I'm weird, uninteresting, unattractive, weird, broken, silly, awfully insecure, weird, silly again, weird again and hopelessly - oh, so hopelessly - romantic.

I'm standing right here.

And it should be the perfect equation, you know? I can perfectly picture the sunset on the beach, you walking up to me, totally shy but still saying it's ok, little dude [you're always calling me that - not sure I like it, though.] we gotta go and try this for ourselves. I want this too. - And only then I would kiss you for the very first time and my life would be complete. But that's just so fucking lame. I feel so fucking lame.

And I guess that, in a nutshell, what I'm trying to say is... (Ok, I heard this once and never thought I would say that but...) here it goes: well, to me, you are perfect.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Das estrelas que não caem

Amo os finais de tarde, talvez mais que a noite ou você.

Olhar pra cima sempre foi tão fácil, nesta mesma hora; mesmo que as luzes daqui brilhem tão fracas... E as estrelas sempre gritam o passado em músicas antigas, se movendo devagarinho em cima de meu bairro. E eu gosto delas por serem agridoces realidades penduradas, sempre tentando me convencer de que meu mundo ideal está logo ali, dobrando a esquina. Mas auto lá, porque são as crianças mais sábias e anciãs. Fadas, pregando peças.

Eu sempre rio e desafio: no meu mundo ideal, minhas caras, vocês caem uma a uma, sete a sete, sem direções ou metas; morrendo em rastros mágicos que enfeitam e fazem e desfazem.

Brilham.

Realizam desejos.


domingo, 28 de agosto de 2011

Platônico

Neste momento, o celular nada mais é do que um escudo. Digito mensagens para ninguém e leio mensagens recebidas há dias, evitando e desejando seus olhos sobre mim. Que ironia de mentira, te encontrar aqui. Eu sabia que isto ia acontecer e eu vim mesmo assim. Eu quis essa ironia. Óbvio. Sou bobo e inseguro e fofo de mais, mas sei o que quero e quando quero. E hoje, meu caro, eu queria mesmo era ler todos os seus pensamentos. Ler todos os livros que você já leu e ouvir todas as músicas que te acalmaram em noites frias e quentes. Alegres ou silentes. Quase consigo ouvir suas letras, mas sempre à distância, nunca perto ou visível, como agora. Devo sorrir? Não. Eu preciso focar na conversa sobre o frio, no papo sobre a Itália. Nas vozes que já coloriam minha vida muito antes de você e seu silêncio.

Acho que você sempre soube o quanto esperei por este momento. Será? Ajeito o cabelo vez ou outra, me perguntando se de fato você estaria me vigiando enquanto eu finjo olhar para outro lugar; enquanto lembro de olhares distantes e curiosos e acidentais. De um encontro específico, para ser sincero, em um dia quente como o inferno, lembra? E como eu amo os encontros acidentais. Gosto de pensar que nós, com nossas secretas estrelas cadentes e pétalas da sorte, transformamos certos sonhos em realidade. E você aqui, agora, diante de mim, é exatamente isso. Tão real e incontrolável quanto estas borboletas em meu estômago. Tão real e imperfeito. E tão onírico. Finjo ouvir conversas, rio sinceramente e tento em vão pensar dez mil vezes antes de falar qualquer coisa. Sempre me traindo, eu apenas me pergunto e me respondo e me pergunto novamente. Sonho.

Queria tanto saber de cada detalhe de seus sorrisos; e desvendar as mensagens que há tanto tempo quero ler nos cantos desses olhos que me deixam nu diante de mim mesmo. Cru e nu, em puro desejo e curiosidade. Despido em pleno inverno, numa sala de espelhos. Queria falar, tocar... Queria entender.

Sua boca, suas mãos... E os seus olhos. Não saberia dizer se são eles em si que me atraem. Talvez o falso silêncio deles. E a escuridão, sem dúvida. É esta escuridão, sim, eu tenho certeza; sempre tão inerente a eles. Essa melancolia secreta sobre a qual eles cantam, como se o simples fato de sua existência fosse um duro fardo que você secretamente carregasse, mas que aos meus olhos salta, óbvia e guerreira, como o sol escaldante que queima na superfície da baía em um típico dia de verão. Uma tristeza singela, talvez leve. Dessas fundamentadas em pilares profundos que só quem ama conhece. Uma tristeza linda e, por isso mesmo, mais linda do que triste. É ela que me atrai. É ela que sempre me atraiu.

As músicas mais bonitas sempre, sempre são as mais tristes. Vai ver é isso. Eu não resisto a uma melodia triste. E sempre prefiro as baladas, sabia? Mesmo com um coração manchado, eu sempre vou atrás delas. Será que temos a nossa? Você realmente me ouviu? E se me ouviu, o que pensa? Que ridículo, este papel. Tosco.

Prometo a mim mesmo parar de agir como uma criança exagerada e levanto, desarmado. Entre sorrisos e promessas curtas, me despeço num gesto mais que esquecível, que pra mim dura cinco horas, e sigo vazio, num descaso tão oco quanto meus passos. Te deixo pra trás com os outros, agora apenas vozes, na eterna dúvida certa de não ser suficiente. Mas largo em seu colo meu coração vazio; e sigo assim, leve e apaixonado, com o medo de perder aquilo que nunca tive.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Do dia em que quase morri

Eu tenho duas notícias: a boa é que, bem, hoje, a grande maioria das pessoas não acredita em sonhos premonitórios. A má, entretanto; e ao menos para mim, é mais impactante: eu não faço parte desta maioria.

Pensar na morte é estranho. Não me preocupo com ela em si mesma e por si mesma, mas sim com tudo envolvendo o que vem depois dela. Como vou, quem vem me buscar, quem encontrarei e, mais importante, que rumo teria a dor que eu provavelmente deixaria. Não penso na minha dor física. Me preocupo mais com o que fariam de meu violino, por exemplo. O que é extremamente curioso, já que odeio dor e sou a pessoa mais medrosa que conheço. Então o que me assusta na morte é justamente a dor que a minha causaria às pessoas que amo. Talvez seja uma forma de me sentir amado, de enxergar um pouco mais de valor em mim ou até mesmo nas pessoas e situações que me cercam. Bem, não haveria porque pensar nisso agora. A hora de sentar na janela e esperar meu bairro chegar já é sinônimo de vida, de segurança. Se algo tivesse que ocorrer, não seria agora. Não aqui. Ou seria? Na verdade, não sei.

O mistério primeiro corresponde a como isso poderia ocorrer. Talvez afogado na baía? Talvez silente e feliz, dormindo no alto de meus 120 anos. Atropelado na porta de casa? Ou talvez em um dia como este, em um momento sem nada de especial, frívolo e coberto de pensamentos nada doces. Sem pressentimentos ou despedidas. Mortes estúpidas são cruéis por isso. Não há prelúdio, não há intuição e não há despedida. Sim... muitas chances de ser assim. É assim para tantos... Contudo, agora, eu só consigo pensar neste crepúsculo tentador que tenho diante de mim. Na tristeza descaradamente implícita de um sol descendente. Se eu tivesse que morrer logo, seria agora, ao pôr do sol. Retornando à casa.

Num só salto o assalto seria declarado. Ele levantaria ali do último assento, com sua arma na mão, é claro. As pessoas tirariam às pressas de suas bolsas seus documentos e esconderiam rapidamente pequenos objetos de valor. Todos estariam tensos, apesar de conformados. Menos eu. Seria meu destino não saber botar os pés fora do apartamento sem qualquer coisa que toque música. Seria apenas minha a inevitável conseqüência do inocente ato de se prender entre um pequeno aparelho e infinitas janelas de vans, ônibus e barcas. Ninguém repararia em mim até o fatídico momento em que eu, o preço do nervosismo de um assaltante jovem executando sua primeira missão, a primeira vítima perfeita de sua infantil falta de controle, pagasse caro por minha distração: um tiro na cabeça. Sim, talvez fosse isso. Que tragédia.

Este sol que coroa o fim da tarde já teria atravessado o ápice de seu rumo ao oeste, o ponto cardeal da morte. Do fim. Do adormecer. Me pergunto se alguém se daria conta deste detalhe... Do fato de a morte chegar a alguém que está encarando um sol de fim de tarde, saudando o oeste. E, claro! Em uma estrada chamada Linha Vermelha. Seria, no mínimo, poético. Para não dizer perfeito. Me pergunto se alguém teria garra suficiente para ignorar o tumulto e, num glorioso ato de audácia, de leve passar os olhos no ipod, descobrindo por fim que som embalou minha morte.

A notícia se espalharia rapidamente. Pessoas de cujas vidas fui apenas mero figurante se surpreenderiam, chocadas com a morte daquilo que para elas não passava de um vulto de memória. Outras superariam rapidamente porque a morte é parte da vida. Ainda mais nesta cidade. Natural. Algumas, entretanto, esboçariam reações muito específicas as quais não detalharei. São uma ou duas pessoas que conheço tão bem a ponto de até mesmo agora, neste mórbido momento, conseguir prever suas reações face a minha morte. Vejo seus semblantes, ouço suas palavras uma a uma. São cenas certas.

Eu despertaria no outro lado da moeda, cercado pela luz enfraquecida de um sol quase ido. Seguiria sua estrada, olhando ao meu redor, até me dar conta da realidade e sentir o peso que a morte traria à minha vida hoje. Pensaria nos meus queridos pais e irmão. Choraria tanto. A ponto de os fantasmas mais velhos e frios - esses, assim, abandonados - se acomodarem ao meu redor na tentativa de trazer consolo e alento.

Preciso de minha casa.

Eu quero dizer adeus agora mesmo aos mais amados. Abraçar meus pais, meu Deus; E agradecer por absolutamente tudo. Quero ver meus cães. Viajar meio mundo, ou melhor, viajar o mundo inteiro. Quero desatar nós, desencadear verdades e revelar segredos. Botar esta mochila sobre a minha cama e olhar meu teto de estrelas de brinquedo. Tudo isso ao pôr do sol. Mas, não...

As casas passam como cometas pelas janela e o veículo cinza finalmente cruza as portas do bairro. O sol se põe e Vênus ganha força em seu canto, cedendo espaço a um pálido globo prateado. Tenho uma lua cheia no céu, uma mochila vazia nas costas e energia suficiente para muitas horas de música. Não foi desta vez, suponho.

E ensaio sorrisos aqui e ali, esperando o portão chegar.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desajeitado


Nada foxe ao final certo.

- Uxío Novoneyra -


No dia em que a vida me passou para trás, o fracasso nem me olhou nos olhos. Passou por mim sem conversa e seguiu adiante, me deixando ali, em pausa sem tempo definido. É, a intimidade tem dessas coisas...

Quando eu era menor, ele era um companheiro constante. Estava sempre ao meu lado, não me deixava só por um mísero instante. Éramos conhecidos por nossa amizade, que era uma relação bem confusa, porque, veja bem, eu achava que esta existia por eu ser único, completamente fora dos padrões. Então certamente nem me importei quando pude encará-lo e dizer adeus sem sentir saudade. Todo mundo encontra, cedo ou tarde, seu caminho, certo? Encontrando meu caminho, feito de pessoas únicas como eu, eu jamais teria de conviver com aquela presença estranha e incômoda na minha vida. Seria como ganhar uma nova identidade. Ou dar asas à identidade que sempre existiu e fora ofuscada pela sua presença incômoda. Trancado atrás de uma porta imaginária ele permaneceu. Eu segui adiante.

Mas e se esta pessoa que vos escreve, se este ser supostamente doce tivesse apenas se segurado desesperadamente a um sonho? No dia em que a vida botou o pé na minha frente, eu tropecei e vi que a porta esteve o tempo todo entreaberta logo atrás de mim. Vi minha identidade virar nuvem de incenso e meus sonhos, cinzas. Tudo isso em segundos, deixando-me nu e envergonhado, mais uma vez frente a ele.

Eu poderia olhar para baixo e encarar, pelo canto dos olhos, a porta atrás da qual ele estava guardado há muito tempo. Abrir esta porta significaria enfrentá-lo e dizer um desajeitado "olá, eu, por meu próprio mérito (ou falta dele) te trouxe aqui novamente. Sente-se e aproveite a estadia, pois esta parece permanente." Na verdade meu primeiro impulso seria este, mas gelei ao quase toque na maçaneta. O palpável pavor que tal porta instiga em mim foi mais forte. Só de imaginar seu sorriso sarcástico, aquele ar de superioridade tão típico. O olhar dos outros sobre nossa relação. Quis morrer, gritar, bater. Quis morrer de verdade, como nunca quis antes. É tão ruim querer morrer. É tão ruim pensar em morte quando parece haver tanta vida ao seu redor e dentro de você.

Então parei. Sorri. Saí. Nem abaixei a cabeça.

É a arte da falsa doçura. A antiga prática de segurar furações dentro de si. Tolo fui eu de pensar em abrir ou ignorar a porta. Óbvio que esta já estava aberta. Aberta o suficiente para deixá-lo passar com a força de quem foi injustamente preso por anos. Sua fúria era tão real, tão direta. Seca. E seu golpe foi rápido e quase imperceptível em termos de velocidade. Não precisei encará-lo, desta vez. Quer tenha sido por piedade ou ódio, pena ou prazer, ele apenas me atropelou. Categoricamente, por sinal. Conheci suas 10 espadas, estático, num coup de grâce épico. Épico.

Ao mesmo tempo, esta porta aberta tem um quê de saudosismo. Uma energia de embrace who you are. Não sei. Não sei quem eu sou, também. Não faz diferença, neste momento. Eu apenas o reconheço. Muito bem. Está aqui, me rondando, apesar de nossa truncada relação. Eu trago em mim esta qualidade, este dom de emanar conforto para o mais forte através da minha nítida delicadeza... Ou fraqueza.

Eu também poderia, no caso, agradecer aos céus pela oportunidade de ter diante de mim um caminho novo, até certo ponto livre e, mais importante, desconhecido. Poderia ignorar a tal porta e reconstruir tudo e, pela sabe lá deus que vez, fingir que ele, o temido fracasso, não existe.

Mas me diga, valeria a pena? Não seria mais coerente sorrir para ele e aceitar, com serenidade e dignidade, aquele que sempre me conheceu mais que todos?

Afinal, no dia em que a vida me passou para trás - isto é, hoje - a única coisa que consigo reconhecer ao meu redor é ele.

E eu não quero querer morrer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Leonardo, o óbvio

Como se já não bastasse a aliança dourada no dedo e suas roupas sociais de escritório, ele também tinha que segurar um dos principais símbolos da vida adulta: um jornal.

Aposto minha vida na possibilidade de sua leitura ser o caderno de esportes. Bonito? Sim. Continua bonito. Talvez até mais que antes, já que agora - suponho - não há mais o ar infantil e sem educação que era tão típico dos garotos da minha geração, há 12 anos.

Ele, como todos os outros, seguiu os cansados passos de seus pais, que por sua vez seguiram os passos dos seus e assim por diante. Engraçado. Há alguns anos eu sentiria muita inveja dele, tanto por ele estar com a vida "encaminhada" quanto pelo fato de ele ser "normal". Não me leve a mal, não estou criticando deliberadamente a rotina ordinária e sem graça do rapaz. Até mesmo porque confesso que 12 anos atrás eu acreditava que ele se tornaria um marginalzinho, como os piores das turmas se tornaram, embora estivessem em uma instituição respeitável. E vou além e confesso que, ainda hoje, às vezes, quando estou de saco cheio de tudo o que me cerca, eu amo todas essas pessoas e suas vidas comuns. Desejo com força as suas rotinas e toda a glória da previsibilidade das mesmas. Há um certo conforto na normalidade.

Mais do que ninguém, eu sei que não devemos julgar pelas aparências. Acredite, de clichês, eu entendo muito bem. Acontece que eu conheço este rapaz porque venho de um lugar onde todos se conhecem e são iguais e ele, obviamente, não se salvou.

Na infância era um pequeno troglodita, mais um porquinho abusado que batia e brigava de graça, mastigando incessantemente um canudinho e usando uma blusa do vasco extremamente fedida e desagradável por baixo do uniforme. Mas tudo bem, se você acha que prever a vida dele hoje, ao vê-lo como um rapaz heterossexual convicto, católico não praticante, rato de micaretas e torcedor acíduo do vasco que estuda administração e vai trabalhar no centro do Rio de Janeiro lendo o caderno de economia. (sim, perdi a aposta, mas convenhamos, não sei o que é pior, esportes ou economia?) é exigir de mais, tudo bem. Você pode se enganar. Eu não.

Eu sei, sem dúvida alguma, que semana que vem, no carnanval, ele estará em Cabo Frio (uma espécie de extensão ou dimensão paralela à Ilha do Governador) com todos os seus clones que também largaram a rotina daqui para viver a rotina carnavalesca de lá, expelindo cerveja pelos poros. Sou capaz de listar todas as músicas que eles ouvirão ao longo do feriado, bem como as músicas que ouvem e ouvirão ao longo do ano. Consigo listar os shows e programas que frequentariam e consigo prever as palavras que sairão de suas bocas, expressando os pensamentos que consigo adivinhar. Triste. Só me resta esperar que os filhos deles façam a diferença que eles não fizeram.

O normal de mais me soa patético, apesar de eu ter consciência de que eu também, como milhares, estou seguindo um caminho que, apesar de soar anormal ou cool, é desprestigiado e foi e é muito batido. A diferença é que eu, independentemente do caminho que sigo, não sou passível de leitura assim, tão facilmente. Nem mesmo eu sei o que eu penso. E nem mesmo eu tenho ideia de onde estarei daqui a um mês. Posso ser observado, mas não sou absorvido. Eu consigo prevê-los. Todos eles.

Essas pessoas não me veem e não me reconhecem. Só eu tenho este privilégio da memória. São todos iguais, absorvidos em vidas tão "normais" que não são capazes de enxergar, não se dão conta de absolutamente nada. Nem mesmo do rapaz ao lado escrevendo sobre suas vidas desbotadas e sem nexo. Não me surpreendo. Como imaginariam tal absurdo? Não dão asas às possibilidades! Ninguém percebe? É como ter dinheiro suficiente para viajar e se limitar a ir à Disney! Acaso não pensam no tamanho do universo e nas possibilidades por ele oferecidas? Possibilidades são portas, estradas e mares que te levam a terras nunca antes vistas. Possibilidades levam a amores inimagináveis.

Eu tenho um mundo para ver e aprender. Um globo com 4 direções, 5 terras, 7 mares e quase 7 bilhões de pessoas para eu amar, machucar e permitir que me machuquem. Amo pensar nisso. Amo pensar a partir daqui, desta baía, vendo o mundo a partir desta barca. Amo, acima de tudo, ser a variável dessa equação supostamente previsível que é o meu passado.

O óbvio tem um limite.
E a diferença torna o único perfeito e faz do todo algo valioso.