quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Dobram as Campânulas


"Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand."

The Stolen Child - W.B. Yeats


O quarto era rústico. Apesar de abrigar móveis antiqüíssimos feitos da madeira mais fina da região, o conjunto todo trazia uma simplicidade admirável. Diante das etéreas auras das crianças, tal aposento lembrava um deserto escuro e frio. Tão vasto... Muito fácil seria se perder dentre seus mistérios! Embora tivesse em suas antigas paredes muitos quadros e imagens sedutoras, apenas o imponente espelho, no canto do aposento, dava alguma vida ao lugar. Fora um presente anônimo, dado junto com as crianças, ao serem abandonadas na porta de dois estranhos. Tinha em sua moldura pequenos rostos e pequenas asas, todas ornamentadas com flores e pedras preciosas das mais diferentes cores. Era enorme e parecia um portal. Isso! Um portal! Exclamava Nanna ao examinar o antigo espelho, quase hipnotizada pela sua própria imagem. Em doze primaveras de vida, e com um sinal esverdeado entre seus cabelos vermelhos, carinhosamente chamado de “beijo de fada”, nunca tivera tanta certeza de não pertencer aquele lugar. Simplesmente não conseguia - Se é que tentava - esconder sua misteriosa origem. Todos os seus gestos impediam que tal verdade fosse escondida. Cada movimento revelava sua não-existência àquela vida.

- Não creio em ti, da ra ra... Não creio em ti! Cantarolava Midir, o irmão mais novo, ao se preparar para deitar ao lado da querida irmã. Em dez invernos de vida, o menino tentava como ninguém esconder seus mais íntimos sentimentos e sua profunda fé nas palavras daquela que amava como uma mãe. A sabedoria implícita que emanava da boca de Nanna o apavorava, pois a sabedoria está diretamente ligada à verdade. E esta, até então, sempre doera. Nanna falava de forma doce, mas com traços escuros de quem não poderia esconder uma certa angústia. Falava com os olhos fixos no nada, e suas palavras, dizendo mais do que ela em si poderia dizer, se espalhavam por todo o quarto como vapor:

- “Cantam aos pés de meus ouvidos. Ah, que doces são aquelas vozes... Hão-de cantar para sua alma também. E hão-de ornamentar com flores seus cabelos, Midir... Espere e verás, querido irmão!”

Deitados de mãos dadas em meio à seda branca da cama, ambos sabiam em seus corações o que os esperava. Tentavam dormir com uma certeza velada pelas paredes daquele quarto de onde as únicas saídas para um mundo melhor eram a janela e o espelho. A porta, não. A porta para o mundo cruel de seus pais adotivos, jamais. Por hora só queriam dormir. Queriam sonhar para sempre.

No alto daquela mesma noite, pequenas risadas se fizeram ouvir de longe. Vinham do âmago silencioso do luar, que tentava sem sucesso os envolver em sono. As risadas vinham com o vento que tentava abrir a janela, e vinham com um ritmo certo em misteriosa melodia. Seriam sonhos? Sim! Seriam! Sonhos que vinham pelo ar para levá-los embora dali.

- É chegada a hora, irmão. Sussurrou Nanna, pegando Midir pela mão ao ouvir seus visitantes. Passo a passo, ambos caminharam até a janela. Primeiramente, um passo em nome da vida da qual foram privados por anos. Logo em seguida, outro passo, este em nome da liberdade prestes a ser alcançada. Em profunda paz deram passos em direção ao eterno até serem supreendidos por um estrondo que, com um intenso golpe de ar, abriu brutalmente a janela, lançando algo em direção ao antigo espelho. Os distantes risos se fizeram mais altos e mais intensos, e ao som dos pequeninos visitantes os irmãos viram repousar no chão do quarto um pequeno ramo de campânulas cor-de-rosa. Instantaneamente sabiam do que se tratava tal presente dado por aqueles pequenos deuses caídos, que em pequena algazarra cantavam:

- “Comam o número correto e nosso reino diante de seus olhos se abrirá! Comam além ou aquém do esperado, e suas doces almas hão-de ficar para sempre seladas no silêncio!"

De mãos dadas e de olhos fechados, Nanna e Midir dividiram e mastigaram as campânulas em um delicado ritual. Trasnbordavam em euforia, rodopiando pelo quarto acompanhados pelos pequeninos em uma festa caleidoscópica e colorida. Eu acredito, eu acredito, eu acredito! Exclamavam em uma descontrolada fúria enquanto dançavam intensamente no ritmo da liberdade alcançada. Eu acredito, eu acredito, eu acredito! Gritavam sem qualquer limite em um círculo intenso, envolvidos no êxtase da liberdade secreta trazida pelos seus visitantes. As campânulas dobravam sinistramente guiando aqueles que outrora foram arrancados de um lar digno de sua pureza. Assim, naquela mesma noite, ambos os irmãos deixaram para trás aquela vida, e perderam-se por entre pétalas cor-de-rosa, permanecendo envolvidos na magia das campânulas até despertarem em um mundo no qual eram, como há muito sabiam, Príncipe e Princesa.

domingo, 26 de agosto de 2007

Manhã de Segunda-feira


Perdido em devaneios por conta de uma antiga teia de aranha, ele perdeu o foco de seus pensamentos mais concretos e despertou para o outro lado da eterna charada que é a vida. Pela janela ele admirava a gigantesca pedra que repousava como um sonolento vulcão além de alguns morros e muitas árvores. Aquilo sim o fascinava com força bruta e verdadeira, com paixão ardente que consumia cada célula, cada osso e cada músculo de seu corpo. Aquela era a coreografia da eterna dança de seus devaneios. E tal dança simplesmente consistia em olhar com os olhos ocultos da alma.

- Bom dia, ele sussurrou sorrindo. E envolvido no frio da manhã viu o sol, ainda lento e suave, chegar manso de árvore em árvore, como um imperador que saúda filho por filho ao despertar de longo e escuro inverno. Acompanhou os antigos braços solares subirem os morros e abraçarem a antiga pedra. Sempre acreditara que ela, tão bem acomodada, fora colocada ali por mãos de gigantes. Era simplesmente muito perfeita para ter sido mero acaso da natureza. Aliás, o que viria a ser o acaso, afinal, na natureza? E o que seria, afinal, a natureza em si? No fundo, como todos nós, sempre soubera a resposta.

Sabia que não pertencia àquele tempo, àquela vida tão ríspida a qual se submetiam os seus contemporâneos tão bem sucedidos e poderosos. Acompanhado pela abandonada teia de aranha, e com os negros olhos fixos na imponente pedra, ele se sentiu uma criança roubada de seu berço. Então sentiu falta de pessoas que não conhecia. E lembrando de pessoas as quais nunca tinha visto, sentiu saudade de um tempo que não tinha lugar na antiga história do mundo... Apenas sorriu.

- O jeito é sonhar, disse a si mesmo, ao ser puxado brutalmente para a aula de literatura que, como um céu rasgado por um cometa, havia sido interrompida por um estridente celular que trouxe fim aos meros – porém nunca infundados – devaneios de um jovem sonhador.

sábado, 30 de junho de 2007

Lembro-me das Árvores


Suavemente meus olhos se abriram. Havia luz. Uma suave luz que envolvia discretos pontos luminosos espalhados por todos os lados. Na gentil presença da manhã eu tinha chegado ao mundo; e nascera de uma singela gota de orvalho, solitária e tímida, levemente acomodada em uma pomposa pétala de rosa. Lembro-me de ouvir, comandada com maestria pelos pequeninos alados, uma sinfonia circular e crescente composta de fina chuva e canto de pássaros. Lembro de pequenos rostos sorridentes me reconhecendo, e lembro de olhar com curiosa felicidade aqueles que saudosamente ali me recebiam. Sem saber onde me encontrava, não temi, e gentilmente suas gravíssimas vozes se fizeram ouvir, vindas do âmago da Grande Matriarca. Lembro-me muito bem do tremor das terras ao som daquelas vozes maternas. Suas palavras não eram ditas – não haveria como - e mesmo assim se faziam presentes e ecoavam como verdadeiros cataclismos nas antigas planícies daquele mundo há muito esquecido. Eu, tão simples e fechado, havia nascido no mais belo bosque construído pelos Deuses.

Lembro-me de ouvir que as chuvas viriam para lavar as almas recém-chegadas, e que os trovões manteriam longe todos os perigos que assolassem nossas terras. Me foi dito também que minha força viria do Sol, ao passo que meus sutis saberes viriam da Lua; e lembro-me muito bem do respeito que sentia naturalmente pelas vozes daqueles que me acolhiam, vozes que permeavam tudo. Vozes que ecoavam por cada canto daquele sagrado bosque. Lembro de saber que ali sim, de fato, eu estava entre os meus.

Havia prenúncio de sonhos naquelas terras verdes. Muitos sonhos. Alguns a serem plantados, outros a serem colhidos. Segundo as vozes, de vez em quando eu me acomodaria nos braços das imponentes raízes para observar os pequeninos em suas distrações, para abençoar inocentes juras de amor às sombras das anciãs ou simplesmente, como a grande maioria costumava fazer, para sentir as energias titânicas que pulsam no longínquo interior da terra. Da mesma forma foi-me dito que nas noites de Lua cheia todos nós festejaríamos em círculos, e que enquanto fôssemos puros o verão perduraria sem fim, como um sonho eterno.

Haveria perigos também, alertaram-me as vozes. Aquelas vastas terras que me esperavam em minha longa jornada me trariam armadilhas, dores e medos. Contudo, lembro-me de ouvir que o amor verdadeiro era imortal como minha essência, e que um sorriso seria sempre a melhor ferramenta nas horas difíceis.

Lembro-me de ser avisado de que caberia a mim despertar a vida e a beleza inerentes a cada folha, a cada flor e a cada fruto, e que meus olhos naturalmente me trairiam caso eu tentasse dissipar a verdade com falsas palavras.

Finalmente, fui lembrado de que os homens há muito haviam se perdido por entre seus próprios poderes, e que eu jamais deveria perder de vista as estrelas, pois elas, como meus irmãos e irmãs, também seriam minhas confidentes ao longo de minha jornada.

Levantei tímido, buscando força para utilizar minhas tão singelas asas, naquele primeiro momento tão fracas, rumo ao raio de Sol que entrara por entre os tetos verdes daquele sagrado palácio de folhas. Ajoelhei-me diante da mais antiga árvore daquele bosque, jurando viver cada segundo em nome do bem daqueles que ali habitavam.

Mais um ciclo se iniciara em minha existência. Eu podia sentir que vivia através daquele poder. O poder daquelas vozes, daqueles trovões. Um poder que vinha das escuras profundezas quentes, subindo por entre as terras, em espiral, trazendo à tona a verdade das verdades. Jamais subestimei a sabedoria daquelas antigas árvores que por eternidades me receberam em diferentes existências. E até hoje cuido de tudo aquilo que vive sobre as gigantescas raízes de minhas bondosas mães.

domingo, 17 de junho de 2007

Fantasma


Sombra dos reflexos, lembrança perdida
Sou brinquedo de lado, linda pedra partida.
Sou o outro caminho, mágico falido
Sou o sonho esquecido e teu ego ferido.
Prazer, sou eu, teu maior inimigo.
Senha decifrada, escada infinita
Sou a asa quebrada, vento forte na aveninda.
Sou o mau exemplo, tua fruta proibida
Sou o fantasma da perda, tua anti-utopia.
Não contente, sou também, tua triste melodia.

Outra Polaridade


Às vezes, quando a lua se esconde
Minha falsa luz se faz vapor
E eu paro sereno diante de minhas águas
E olhando para o nada, vivo meu torpor.
Respiro e espero o leve manto negro de seda descer
E no contato intenso e íntimo com meu lado escuro
Eu sinto a vida pulsar
E minha raíz crescer.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Com Estrelas


Parado nesta praia eu olho as estrelas. Eu quero ferver na certeza aguda de que eu sou o único ser humano no universo inteiro a contemplar esta visão. As estrelas me entendem. Eu as ouço, e elas me confortam, elas me envolvem, elas me sustentam. Ah, e as ondas... Essas ondas que não param nunca. Nossas almas que não param nunca. E todos nós - ondas e almas - vamos indo e vamos vindo com nossos segredos. E este momento é um segredo tão doce... Só eu, as ondas e as estrelas. Tão longe das luzes, dos homens e de seus silêncios ferozes. Será que há mais alguém enxergando essas estrelas de algum lugar? As ondas quebram, o vento bate e com um golpe repentino de ar aquela pontada me invade: não há sereias nesta praia, não há lua, não há amor. Mas então porque eu sei, com cada parte do meu corpo, que você também está a olhar este céu, a contemplar este universo? Já não sou mais eu porque sou água, sou areia, sou vento... Mas ainda assim te sinto aqui dentro! Eu falhei em ser só. Falhei. E hoje esta praia é o fim do mundo e eu te ouço incessantemente... Mas espere, meu amor, veja bem: não te ouço com ouvidos. Eu te ouço com estrelas... E te espero.






Segredos Marinhos


Ao me dar conta do pecado que cometi, saí correndo por meus largos e infinitos corredores. Neles ecoavam melodias tristes, palavras em vão e juras de amor. Percorri todas as alas e corredores daquele castelo, mas dentre tudo que suas poderosas paredes ecoavam, não havia sequer um pecado, um segredo mortal que alguém tivesse deixado escapar. Sem saber o que fazer, cruzei a porta principal, os jardins e finalmente os portões. Pedi aos Deuses um modo de guardar meu segredo em algum lugar que não fosse meu coração e caminhei até a beira do penhasco, lugar alto que me mostrava tudo que a luz e a escuridão podiam alcançar. Pesava em mim a presença de tão mórbido segredo. A quem eu contaria? Quem me perdoaria? Toda aquela imensidão, aquele mar e aquele céu... Nada daquilo me acalmava. E se eu gritasse, talvez? Quem sabe com um grito forte - como aqueles que eu ouvia em batalhas em outras eras, outras vidas - o segredo pudesse se dissipar em meio ao azul? Respirei fundo e me preparava para me livrar de meu fardo com toda fúria quando vi brilhar na areia, lá embaixo na praia, um ponto branco.

Desci pelas pedras e notei que as ondas não me queriam por perto. Elas me acertavam, me atacavam com uma cólera decidida. Conheciam - a seu modo - meu exato objetivo. Não desisti. Segui meu caminho em direção ao ponto que me iluminava, que me atraía e um calafrio agradável tomou conta de mim ao ver que o ponto, pálido, nada mais era do que uma singela e encantadora concha. Por mais simples que fosse, ela sabia que ao longo de toda a costa, apenas ela estava ao alcance de alguém. Sim, ela era a única concha de toda a costa, sozinha e vaidosa, esquecida em meio àquela enorme faixa escura de areia esverdeada. Não havia uma estrela no céu, não havia testemunhas. O brilho da concha era a única luz da praia, a única luz existente em meu reino e eu, pecador tirano, estava a um passo de sua pureza. Teria alguma criatura visto tal pedaço de luz e a ignorado? Que sereia teria deixado ali, em areias tão escuras, tal artefato? Por quê? Perguntas tolas surgiam em minha mente. As ondas transpareciam todo o seu desespero diante da cena. Eu podia ouvir seus gritos, suas súplicas.

Nenhuma onda, nenhum trovão - ou Deus - foi capaz de me impedir. Tomei a delicada concha em minhas mãos, trazendo a mesma à altura de minha boca. Assim, transmiti meu pesado segredo àquele ser puro que, até então, desconhecia a escuridão que o homem desperta em si. Senti a angústia e a tristeza tomarem conta das ondas, do vento e do céu, que recolheu seus trovões. Já estava feito: meu segredo não se encontrava mais em mim e a concha estava cinza e seca. Talvez morta. Voltei a mim ao perceber que um golpe de ar repentino lançou a concha em direção às ondas, levando-a para longe dali com seu novo segredo - ou sina - de volta às suas sereias. Fui covarde, fui tirano, fui egoísta... Fui, da pior maneira, humano. E após três luas, pude avistar três sereias mortas e frias de tristeza estiradas sobre a antiga areia escura. Corpos sutis que, em algum momento, tentaram ouvir um segredo que não lhes pertencia.