domingo, 28 de agosto de 2011

Platônico

Neste momento, o celular nada mais é do que um escudo. Digito mensagens para ninguém e leio mensagens recebidas há dias, evitando e desejando seus olhos sobre mim. Que ironia de mentira, te encontrar aqui. Eu sabia que isto ia acontecer e eu vim mesmo assim. Eu quis essa ironia. Óbvio. Sou bobo e inseguro e fofo de mais, mas sei o que quero e quando quero. E hoje, meu caro, eu queria mesmo era ler todos os seus pensamentos. Ler todos os livros que você já leu e ouvir todas as músicas que te acalmaram em noites frias e quentes. Alegres ou silentes. Quase consigo ouvir suas letras, mas sempre à distância, nunca perto ou visível, como agora. Devo sorrir? Não. Eu preciso focar na conversa sobre o frio, no papo sobre a Itália. Nas vozes que já coloriam minha vida muito antes de você e seu silêncio.

Acho que você sempre soube o quanto esperei por este momento. Será? Ajeito o cabelo vez ou outra, me perguntando se de fato você estaria me vigiando enquanto eu finjo olhar para outro lugar; enquanto lembro de olhares distantes e curiosos e acidentais. De um encontro específico, para ser sincero, em um dia quente como o inferno, lembra? E como eu amo os encontros acidentais. Gosto de pensar que nós, com nossas secretas estrelas cadentes e pétalas da sorte, transformamos certos sonhos em realidade. E você aqui, agora, diante de mim, é exatamente isso. Tão real e incontrolável quanto estas borboletas em meu estômago. Tão real e imperfeito. E tão onírico. Finjo ouvir conversas, rio sinceramente e tento em vão pensar dez mil vezes antes de falar qualquer coisa. Sempre me traindo, eu apenas me pergunto e me respondo e me pergunto novamente. Sonho.

Queria tanto saber de cada detalhe de seus sorrisos; e desvendar as mensagens que há tanto tempo quero ler nos cantos desses olhos que me deixam nu diante de mim mesmo. Cru e nu, em puro desejo e curiosidade. Despido em pleno inverno, numa sala de espelhos. Queria falar, tocar... Queria entender.

Sua boca, suas mãos... E os seus olhos. Não saberia dizer se são eles em si que me atraem. Talvez o falso silêncio deles. E a escuridão, sem dúvida. É esta escuridão, sim, eu tenho certeza; sempre tão inerente a eles. Essa melancolia secreta sobre a qual eles cantam, como se o simples fato de sua existência fosse um duro fardo que você secretamente carregasse, mas que aos meus olhos salta, óbvia e guerreira, como o sol escaldante que queima na superfície da baía em um típico dia de verão. Uma tristeza singela, talvez leve. Dessas fundamentadas em pilares profundos que só quem ama conhece. Uma tristeza linda e, por isso mesmo, mais linda do que triste. É ela que me atrai. É ela que sempre me atraiu.

As músicas mais bonitas sempre, sempre são as mais tristes. Vai ver é isso. Eu não resisto a uma melodia triste. E sempre prefiro as baladas, sabia? Mesmo com um coração manchado, eu sempre vou atrás delas. Será que temos a nossa? Você realmente me ouviu? E se me ouviu, o que pensa? Que ridículo, este papel. Tosco.

Prometo a mim mesmo parar de agir como uma criança exagerada e levanto, desarmado. Entre sorrisos e promessas curtas, me despeço num gesto mais que esquecível, que pra mim dura cinco horas, e sigo vazio, num descaso tão oco quanto meus passos. Te deixo pra trás com os outros, agora apenas vozes, na eterna dúvida certa de não ser suficiente. Mas largo em seu colo meu coração vazio; e sigo assim, leve e apaixonado, com o medo de perder aquilo que nunca tive.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Traços

Hoje senti seu cheiro na brisa da baía.
Veio assim, bem de leve, de algum lugar do futuro,
num prelúdio da realidade em que este sonho há de se tornar.

Vi teu jeito tímido e a confiança que suas mãos de pianista inspiram.
Seu cabelo ondulado num fim de tarde chuvosa e suas roupas, sem propósito algum,
jogadas na cama. Seu sorrir sem querer. Meu bem querer sem querer.

Vi nossa cumplicidade, tão forte a ponto de, mesmo agora - antes de sequer existir - já me atingir assim, em lugares tão escondidos.

Há uns que sonham e outros que sabem. Eu sei. Simplesmente sei.
E te espero há tanto tempo.
Com tanto a ser dito,
E tanto tempo...

Tudo isso aqui, anjo, em mim.
E você no vento.

Sempre chegando.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Do dia em que quase morri

Eu tenho duas notícias: a boa é que, bem, hoje, a grande maioria das pessoas não acredita em sonhos premonitórios. A má, entretanto; e ao menos para mim, é mais impactante: eu não faço parte desta maioria.

Pensar na morte é estranho. Não me preocupo com ela em si mesma e por si mesma, mas sim com tudo envolvendo o que vem depois dela. Como vou, quem vem me buscar, quem encontrarei e, mais importante, que rumo teria a dor que eu provavelmente deixaria. Não penso na minha dor física. Me preocupo mais com o que fariam de meu violino, por exemplo. O que é extremamente curioso, já que odeio dor e sou a pessoa mais medrosa que conheço. Então o que me assusta na morte é justamente a dor que a minha causaria às pessoas que amo. Talvez seja uma forma de me sentir amado, de enxergar um pouco mais de valor em mim ou até mesmo nas pessoas e situações que me cercam. Bem, não haveria porque pensar nisso agora. A hora de sentar na janela e esperar meu bairro chegar já é sinônimo de vida, de segurança. Se algo tivesse que ocorrer, não seria agora. Não aqui. Ou seria? Na verdade, não sei.

O mistério primeiro corresponde a como isso poderia ocorrer. Talvez afogado na baía? Talvez silente e feliz, dormindo no alto de meus 120 anos. Atropelado na porta de casa? Ou talvez em um dia como este, em um momento sem nada de especial, frívolo e coberto de pensamentos nada doces. Sem pressentimentos ou despedidas. Mortes estúpidas são cruéis por isso. Não há prelúdio, não há intuição e não há despedida. Sim... muitas chances de ser assim. É assim para tantos... Contudo, agora, eu só consigo pensar neste crepúsculo tentador que tenho diante de mim. Na tristeza descaradamente implícita de um sol descendente. Se eu tivesse que morrer logo, seria agora, ao pôr do sol. Retornando à casa.

Num só salto o assalto seria declarado. Ele levantaria ali do último assento, com sua arma na mão, é claro. As pessoas tirariam às pressas de suas bolsas seus documentos e esconderiam rapidamente pequenos objetos de valor. Todos estariam tensos, apesar de conformados. Menos eu. Seria meu destino não saber botar os pés fora do apartamento sem qualquer coisa que toque música. Seria apenas minha a inevitável conseqüência do inocente ato de se prender entre um pequeno aparelho e infinitas janelas de vans, ônibus e barcas. Ninguém repararia em mim até o fatídico momento em que eu, o preço do nervosismo de um assaltante jovem executando sua primeira missão, a primeira vítima perfeita de sua infantil falta de controle, pagasse caro por minha distração: um tiro na cabeça. Sim, talvez fosse isso. Que tragédia.

Este sol que coroa o fim da tarde já teria atravessado o ápice de seu rumo ao oeste, o ponto cardeal da morte. Do fim. Do adormecer. Me pergunto se alguém se daria conta deste detalhe... Do fato de a morte chegar a alguém que está encarando um sol de fim de tarde, saudando o oeste. E, claro! Em uma estrada chamada Linha Vermelha. Seria, no mínimo, poético. Para não dizer perfeito. Me pergunto se alguém teria garra suficiente para ignorar o tumulto e, num glorioso ato de audácia, de leve passar os olhos no ipod, descobrindo por fim que som embalou minha morte.

A notícia se espalharia rapidamente. Pessoas de cujas vidas fui apenas mero figurante se surpreenderiam, chocadas com a morte daquilo que para elas não passava de um vulto de memória. Outras superariam rapidamente porque a morte é parte da vida. Ainda mais nesta cidade. Natural. Algumas, entretanto, esboçariam reações muito específicas as quais não detalharei. São uma ou duas pessoas que conheço tão bem a ponto de até mesmo agora, neste mórbido momento, conseguir prever suas reações face a minha morte. Vejo seus semblantes, ouço suas palavras uma a uma. São cenas certas.

Eu despertaria no outro lado da moeda, cercado pela luz enfraquecida de um sol quase ido. Seguiria sua estrada, olhando ao meu redor, até me dar conta da realidade e sentir o peso que a morte traria à minha vida hoje. Pensaria nos meus queridos pais e irmão. Choraria tanto. A ponto de os fantasmas mais velhos e frios - esses, assim, abandonados - se acomodarem ao meu redor na tentativa de trazer consolo e alento.

Preciso de minha casa.

Eu quero dizer adeus agora mesmo aos mais amados. Abraçar meus pais, meu Deus; E agradecer por absolutamente tudo. Quero ver meus cães. Viajar meio mundo, ou melhor, viajar o mundo inteiro. Quero desatar nós, desencadear verdades e revelar segredos. Botar esta mochila sobre a minha cama e olhar meu teto de estrelas de brinquedo. Tudo isso ao pôr do sol. Mas, não...

As casas passam como cometas pelas janela e o veículo cinza finalmente cruza as portas do bairro. O sol se põe e Vênus ganha força em seu canto, cedendo espaço a um pálido globo prateado. Tenho uma lua cheia no céu, uma mochila vazia nas costas e energia suficiente para muitas horas de música. Não foi desta vez, suponho.

E ensaio sorrisos aqui e ali, esperando o portão chegar.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desajeitado


Nada foxe ao final certo.

- Uxío Novoneyra -


No dia em que a vida me passou para trás, o fracasso nem me olhou nos olhos. Passou por mim sem conversa e seguiu adiante, me deixando ali, em pausa sem tempo definido. É, a intimidade tem dessas coisas...

Quando eu era menor, ele era um companheiro constante. Estava sempre ao meu lado, não me deixava só por um mísero instante. Éramos conhecidos por nossa amizade, que era uma relação bem confusa, porque, veja bem, eu achava que esta existia por eu ser único, completamente fora dos padrões. Então certamente nem me importei quando pude encará-lo e dizer adeus sem sentir saudade. Todo mundo encontra, cedo ou tarde, seu caminho, certo? Encontrando meu caminho, feito de pessoas únicas como eu, eu jamais teria de conviver com aquela presença estranha e incômoda na minha vida. Seria como ganhar uma nova identidade. Ou dar asas à identidade que sempre existiu e fora ofuscada pela sua presença incômoda. Trancado atrás de uma porta imaginária ele permaneceu. Eu segui adiante.

Mas e se esta pessoa que vos escreve, se este ser supostamente doce tivesse apenas se segurado desesperadamente a um sonho? No dia em que a vida botou o pé na minha frente, eu tropecei e vi que a porta esteve o tempo todo entreaberta logo atrás de mim. Vi minha identidade virar nuvem de incenso e meus sonhos, cinzas. Tudo isso em segundos, deixando-me nu e envergonhado, mais uma vez frente a ele.

Eu poderia olhar para baixo e encarar, pelo canto dos olhos, a porta atrás da qual ele estava guardado há muito tempo. Abrir esta porta significaria enfrentá-lo e dizer um desajeitado "olá, eu, por meu próprio mérito (ou falta dele) te trouxe aqui novamente. Sente-se e aproveite a estadia, pois esta parece permanente." Na verdade meu primeiro impulso seria este, mas gelei ao quase toque na maçaneta. O palpável pavor que tal porta instiga em mim foi mais forte. Só de imaginar seu sorriso sarcástico, aquele ar de superioridade tão típico. O olhar dos outros sobre nossa relação. Quis morrer, gritar, bater. Quis morrer de verdade, como nunca quis antes. É tão ruim querer morrer. É tão ruim pensar em morte quando parece haver tanta vida ao seu redor e dentro de você.

Então parei. Sorri. Saí. Nem abaixei a cabeça.

É a arte da falsa doçura. A antiga prática de segurar furações dentro de si. Tolo fui eu de pensar em abrir ou ignorar a porta. Óbvio que esta já estava aberta. Aberta o suficiente para deixá-lo passar com a força de quem foi injustamente preso por anos. Sua fúria era tão real, tão direta. Seca. E seu golpe foi rápido e quase imperceptível em termos de velocidade. Não precisei encará-lo, desta vez. Quer tenha sido por piedade ou ódio, pena ou prazer, ele apenas me atropelou. Categoricamente, por sinal. Conheci suas 10 espadas, estático, num coup de grâce épico. Épico.

Ao mesmo tempo, esta porta aberta tem um quê de saudosismo. Uma energia de embrace who you are. Não sei. Não sei quem eu sou, também. Não faz diferença, neste momento. Eu apenas o reconheço. Muito bem. Está aqui, me rondando, apesar de nossa truncada relação. Eu trago em mim esta qualidade, este dom de emanar conforto para o mais forte através da minha nítida delicadeza... Ou fraqueza.

Eu também poderia, no caso, agradecer aos céus pela oportunidade de ter diante de mim um caminho novo, até certo ponto livre e, mais importante, desconhecido. Poderia ignorar a tal porta e reconstruir tudo e, pela sabe lá deus que vez, fingir que ele, o temido fracasso, não existe.

Mas me diga, valeria a pena? Não seria mais coerente sorrir para ele e aceitar, com serenidade e dignidade, aquele que sempre me conheceu mais que todos?

Afinal, no dia em que a vida me passou para trás - isto é, hoje - a única coisa que consigo reconhecer ao meu redor é ele.

E eu não quero querer morrer.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

ToD


"Como cada pessoa é uma pessoa, cada baralho de tarot carrega suas características, seu tom, sua voz. Como você escuta o que seus decks lhe contam? Que tom dão para as suas leituras? Qual é voz do seu tarot?
Blogagem baseada no texto Vozes dos Decks, na coluna La Pietra Oracolare do Bruxaria.net"


Blogagem Coletiva do Blog Oráculos do Feminino


Aqui estou eu novamente inspirado pelas meninas do Oráculos a pensar sobre o tarot. Desta vez a tarefa é refletir a respeito das vozes dos decks, um assunto tão interessante quanto absolutamente tudo que diz respeito ao tarot, sendo este tópico levemente mais intenso neste momento, por razões pessoais.

Recentemente, devido a fatos explicados no meu último post, alguns novos decks entraram em minha vida, me forçando de certa forma a viver intensamente essa inusitada (e, para mim, nova) experiência de sentir na pele as diferentes vibrações que cada baralho transmite. Pois bem, eu poderia ser um pouco mais ousado e tratar das vozes de cada um de meus decks - não são mais do que 5 - mas me parece mais válido focar em apenas um, não só para evitar um texto repleto de informações talvez desconexas, mas também porque se trata de um deck relativamente novo em minha vida; de modo que escrever sobre sua voz - e aqui eu acabo sendo um pouco egoísta- é um trabalho de enriquecedora aprendizagem para mim mesmo.

Bem, o deck em questão é o Tarot of Dreams, do Ciro Marchetti. Este deck é o segundo de uma "trilogia", a saber, The Gilded Tarot, Tarot of Dreams e The Legacy of The Divine Tarot, todos os três trabalhados dentro da arte digital tão caraterística do Ciro.

Antes de mais nada, este baralho fala comigo através de suas cores. Muito intensas, elas chegam a você sem transparecer sua força de forma óbvia, trazendo a mensagem principal, eu diria, para depois abrir espaço para pequenos detalhes que acrescentam e elaboram a leitura. Essas cores a princípio são quatro (ou cinco se contarmos as bordas dos arcanos maiores) e chamam muito nossa atenção. Leva um tempo, contudo, até nos acostumarmos com o fato de o naipe de copas estar em dourado (correspondendo azul às espadas, verde a ouros e vermelho, obviamente, aos paus).

O segundo elemento que muito me chama a atenção são as expressões faciais de seus personagens. Clicando ali em cima no nome do tarot vocês poderão ver algumas imagens que provam que tais expressões são muito específicas, mas vagas como só os sonhos podem ser. Não penso duas vezes antes de dizer que uma leitura neste deck é como um pulo no mundo onírico, onde tudo é possível. Fechar uma leitura e lembrar de suas cartas pode ser de fato recordar um sonho, seus personagens e os lugares em que tais sonhos se desenvolvem.

Falando em lugares, outro grande trunfo deste baralho se divide em quatro cartas adicionais chamadas palace cards. Estas cartas trazem as imagens de palácios relacionados a cada um dos quatro naipes dos arcanos menores. São os palácios de cada uma das cortes, cartas que conseguem dar uma dimensão a mais às leituras no sentido em que podem representar espaços físicos ou emocionais. Abaixo vocês podem ver o palácio de ouros (morava ali fácil fácil...):


Quanto à "fluidez" deste deck, não tenho muito a dizer. Isto vai de acordo com cada um e sua relação com as imagens e a proposta de cada baralho. Eu diria apenas que, para mim, logo na primeira vez ele funcionou como se eu já o conhecesse há anos. O 'testei' em um jogo para minha mãe e foi tão interessante que a carta dela foi o 9 de ouros, que neste deck traz uma mulher muito parecida com ela fisicamente.

No final do dia este deck é para aqueles que, como eu, gostam de criar mundos na imaginação. O universo contido no ToD é imenso e os símbolos sutis e gritantes se combinam perfeitamente, sejam em cores ou figuras, sejam em símbolos astrológicos ou letras do alfabeto hebraico, discretamente desenhados nos cantos das cartas. Este deck é como um sonho bom. Desses que ao serem interrompidos nos fazem cometer a loucura de enfiar a cabeça no travesseiro na tentativa de voltar "pra lá". A diferença aqui é que, para voltar, basta viramos uma carta.



"Dreams are more precious than gold..."


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Quem fala comigo?


- The World - Tarot of Dreams (Ciro Marchetti) -


Ao ler a pergunta em questão, quase gelei. Sabia que ali se encontrava um pequeno desafio. De cara, me coloquei a pensar, trazendo do fundo de um baú coisas das quais eu quase (veja bem, quase) havia me esquecido:

Eu tinha 11 anos quando me coloquei humilde e sinceramente, pela primeira vez, diante de um oráculo. Ou, bem, de um quase-oráculo. Era um livrinho espirituoso chamado O Livro da Sorte. Por mais bobo que ele pareça hoje em dia, aos olhos de uma criança ele é muito poderoso. Eu passava horas tentando decifrar suas rimas enquanto os outros meninos jogavam bola e corriam gritando.

Aos 12 eu já tinha meu primeiro 'deckzinho'. Eram cartas tão vagas e estranhas, baseadas no baralho de Lenormand... Eram quase toscas, mas diziam alguma coisa, em algum nível que até hoje não sei direito qual é. Mais à frente ganhei algumas runas. Adorava tanto o fato de serem um alfabeto... Ainda assim, nem as pedras, muito menos o livrinho, eram bem o que eu procurava. Aliás, mal sabia eu que eu mesmo procurava por algo. Estas primeiras coisas não eram 100% parte de mim, mas quebravam um galho, vibravam com alguma coisa aqui dentro.

Bem, esse fascínio que sentimos por estas cartas (ou pedras, ou manchas ou gravetos...) nunca tem uma razão muito clara de ser, certo? Para mim, pelo menos, a razão era tão obscura que passou naturalmente batida pela minha vida inteira. Nunca o questionei, esse fascínio. Nunca o racionalizei. Ele simplesmente estava ali, dentro de mim. E meu dever - meu instinto - era ouvi-lo, respeitá-lo e, porque não, obedecê-lo?

As coisas correram de forma confusa ao longo de um tempo. São tantas as portas que nos atraem, tantas possibilidades existentes em um mundo que não conseguimos ver... As cartas ficaram um pouco de lado. Talvez tenha faltado foco. Talvez eu precisasse de maturidade para ir fundo em algo que viria apenas mais à frente.

Foi em um dia chuvoso que, após uma briga séria com meu pai, eu passei horas e horas fora de casa questionando, pela primeira vez, certas coisas inerentes a mim. E é aí que a questão central deste texto entra. A partir daí um novo rumo surgiu. Não só no dia deste desentendimento, mas naquela época de forma geral, eu pude pela primeira vez ouvir a chuva. Ouvir. De verdade. Aqui dentro. Sim, água é água. Normalmente já exerce poder sobre nós. Água caindo do céu, então... O fato é que eu ouvia a chuva como nunca havia ouvido a mim mesmo em 15 anos (minha idade, na época).

Retornei à casa decidido a tomar atitudes drásticas em relação à quem eu era e seria. Cheguei com sete pedras na mão para ser absolutamente desarmado. Fui recebido pelo meu pai com um pacote cuidadosamente embrulhado em verde. Meu primeiro "main deck" estava ali, junto com um sincero e inesquecível pedido de desculpas.

Católico que é, meu querido pai nunca teve curiosidades a respeito desse mundo que tanto nos atrai. Tudo que ele sabia é que já havia um tempo desde que eu havia visto esse deck em uma loja, e que o mesmo tinha me chamado a atenção. Enfim, para o deck um tanto incomum que é, considerado surrealista (Osho Zen), ele me surpreendeu. E é engraçado, quando estamos abertos a tudo, quando não temos muitas opiniões, as coisas podem fluir muito bem. Na época não me passou pela cabeça julgar, compará-lo a outro baralho ou ponderar e decidir o que fazer. Aceitei meu presente com humildade, transbordando de felicidade, mesmo sabendo que junto a ele vinha uma jornada sem fim. E foi nele que eu aprendi a lidar de forma adulta com as cartas. Principalmente com os arcanos menores, que mesmo sempre gritando aos nossos olhos são tão silenciosos. Esse deck foi uma escola e foi a segunda voz que pude ouvir claramente depois da chuva. Aprendi o que é intuição, pude ver que algo maior nos fala claramente através de pedaços de papel...

Em meio a sonhos, escolhas são feitas e, de uma forma mais do que natural, após uns anos, meu deck ficou guardado em sua caixa, ao lado de minha cama. Sonhos brotando em nossas vidas sempre são coisas boas, mas há de se manter o foco em certos elementos. Sendo mais forte que eu, a vida me afastou um pouco de meu amigo. Alguns anos passaram até que, há alguns meses, meu melhor amigo começou a pedir que eu abrisse um jogo para ele. O incômodo era duplamente intenso: primeiramente porque havia um tempo desde a última vez em que eu o havia feito (ainda não lembro dela, aliás), e além disso havia também a insegurança estranha de lidar com as cartas novamente. É como se eu tivesse me distanciado repentinamente de um grande amigo sem dar satisfações e agora tivesse que enfrentá-lo e assumir minha negligência, encarar o fato de que não sabia o porquê exato de ter me afastado.

Para minha surpresa, tudo fluiu muito bem. Meu amigo não me destratou. Pelo contrário, agiu tão naturalmente, de forma tão leve! Como se nenhuma distância jamais tivesse existido. As coisas seguiram do exato ponto em que foram deixadas. A partir daí, tudo tem sido uma verdadeira festa. É como se um rio tivesse sido liberado, podendo agora fluir. Novos decks surgiram, livros que eu sempre tive e nos quais eu nunca havia reparado pularam do meu armário. Sites, pessoas, métodos. Todas as informações repentinamente à minha disposição. As coisas começaram não só a surgir, mas a falar.

Eu decidi pensar a questão central deste texto a partir daí; e diria que, antes de tudo, quem fala comigo é o amor. Ele guia as nossas vidas. Ele traz coisas e pessoas e lugares. E também pode nos afastar das mesmas, assim, num tirar de cartas. Ainda assim, sem desmerecer o amor (convenhamos, é o amor) não acredito que seja só isso. E eu sei que, com respeito ao Tarot, absolutamente tudo conta na hora de abrir um jogo.

Acho que além do amor ao que se faz, temos as cartas, que estão ali, cantando em nossos ouvidos invisíveis, nos guiando. Acredito que um dos momentos mais mágicos de se abrir um jogo é o momento de selecionar as cartas. O que te guia para tal carta e não outra? Como o Tarot faz isso? Quando me perguntaram quem fala comigo, esse momento de escolher cartas foi uma das primeiras impressões que tive. É ali que algo além de mim e do Tarot age. Há tudo isso que vemos e sabemos, mas há também algo que não enxergamos. Algo que não fala, mas vai direto ao ponto e - pá! nos faz entender a mensagem. Nem sempre sabemos verbalizá-la, mas a compreendemos.

Acontece que o amor a algo que só você conhece vai te levar ao Tarot. E este, por sua vez, fala com aquele que, sabendo sua língua, vai de coração aberto falar com ele. Então o Tarot fala com todos nós, de certa forma. Indo além disso, olhando para dentro, eu vejo que quem fala comigo é o invisível. Tudo aquilo que eu não necessariamente vejo, mas sinto. Sempre foi assim. Será sempre assim.

Por hora paro aqui, confessando sem medo que esta questão ainda não está fechada em minha mente. Ela vai permanecer fervendo, como uma meditação constante. Talvez o processo de descobrir que voz fala aos nossos ouvidos seja para a vida inteira e além. Afinal, não podemos ouvir mais de uma voz?


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

XVI


It always starts with some insignificant shade of sentiment. A seed abandoned deep into the earth...

I have felt this before, my friend, this inner cataclysm. It comes from a dark - yet, amazing - place that I don't know of and by the time it sees the light of the day everything around me, this whole vast world... It has already been touched. Changed. Altered by me.

This violent disruption makes my mind and strength sound like the air, for it is simply natural. It is a fundamental part of me that I insist on hiding, like my hair that keeps being cut off by external pressure, not allowed to grow, deprived to flow its' natural course.

Time has come and my windows must be left open. Let the amazing thunderbolt hit this old tower and may we all fall in peace to meet our feared destinies.

Believe.