quarta-feira, 30 de abril de 2008

Crescendo


E por não mais ser real,
retirou-se, pálido, rumo ao deserto.
Tinha saberes perdidos e sonhos quebrados,
pois inútil é a força do unicórnio,
que apesar de último de todas as terras,
não mais é procurado.
Lembrança fraca, desbotada.
Hoje é areia e vento.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Uma Vida Inteira (And he knew it was love...)


Ao passar a mão em seus cabelos bagunçados, ele concretiza em seu olhar o oceano inteiro em uma única gota de saudade. O mar em seus olhos acolhe e dissipa dissimuladamente as saudades que virão quando o futuro pressentido chegar. Sente saudade daquele mesmo momento, delicadamente observado de uma bicicleta parada na areia. Nunca soubera por em palavras tal evento, mas era puramente saudade. Uma saudade afinada, em tom menor, daquilo que estava acontecendo. Saudade de tudo aquilo que ele nem havia vivido.

Tinha a certeza da veracidade do estranho sentimento, pois sentia algo maior por vir. Ouvia a grandiosidade do poder de sonhar, sentindo assim, antecipadamente, saudade das águas obedientes à lua crescente, existentes apenas ali, no seu mundo isolado e simples. Já sentia saudade de qualquer noite de segunda-feira de maio. Noites em que estava sozinho em casa, dançando canções que somente a ele pertenciam. Noites com cheiro de cravo e canela, em páginas borradas de deveres mal feitos e sonhos. Sim, sonhos! Com sonhos, quem precisaria de deveres? Sempre falaria isso em alto e bom tom, rindo de sua própria falta de sensibilidade em relação ao que não lhe interessava.

Seus simples gestos diante do hibridismo daquele estranho sentimento era um ritual diário: bicicleta, praia, lua e vento. O enlace que unia passado, presente e futuro se dava em tais momentos, os tornando pequenas dádivas que portavam o título de verdadeiros milagres secretos. Ficaria horas imaginando como cada alegria realizada no futuro viajava no tempo e o atingia lá no passado – para ele, presente – fazendo-o sentir uma felicidade inexplicável.

Tentava decifrar que alegrias futuras transitavam assim, da frente pra trás. E perdia-se nas horas tentando saber se escapavam do futuro para o passado por serem alegrias grandes de mais para caber em um tempo só. Poderiam ser beijos correspondidos, sorrisos doces ou simplesmente abraços apertados. Tão inexplicável, mas até certo ponto, pois ele sabia que tudo isso era amor. Era uma flor nascendo em meio às pedras! Tais alegrias misteriosas eram os olhos de anjos confidentes! Eram o prenúncio de sonhos realizados em um futuro não vivido e muito menos especificado! Então, ao sorrir, inexplicavelmente ele sabia que quem se colocava por trás de tudo, quem permanecia até o fim, era o amor... Tão além do que ele poderia compreender, mas era o amor... E foi assim que ele sorriu e percebeu os sons do tempo.

Quando ele passa a mão nos cabelos bagunçados, de frente para o mar, lá no passado, ele está no futuro vendo um mundo que existe além da porção de terra ocupada por ele. Seus dedos atravessam seus cabelos para tocar o rosto do amigo que ainda não entrara em sua vida; Seus dedos tocam as cordas que ainda nem sequer foram pensadas por suas mãos pálidas de noite de outono e seu coração, perplexo e gelado, chora a partida daquele que antes mesmo de chegar já foi embora. Laços do tempo transformando-se em indecifráveis nós dentro do coração humano. Ele sabia que era o amor vencendo o tempo.

Mas com sonhos, quem precisaria de tempo? Pensa ele no futuro - para ele, presente - ao digitar este texto.

Sabe então que o amor é tudo o que ele pode compreender.

segunda-feira, 17 de março de 2008

O Efeito Loxian


Não fora o primeiro e nem seria o último a ter certeza de que o ar que o tocava era o mesmo que envolvia cada estrela que cabia no céu. Não se tratava de um estudioso do espaço, contudo, em sua humildade, sempre fechado e sereno, deitava-se todas as noites para contemplar cada singelo ponto pendurado no firmamento. Gostava de pensar que a noite nada mais era do que a vida por baixo de um vasto oceano negro. Compenetrado, ele observava cada detalhe como se fosse um sábio conhecedor, quase um amigo íntimo de longa data de cada estrela. Se era sábio ou não, não sei ao certo. Não cabe a mim decidir algo desta natureza. Mas com certeza ele foi alguém que apenas seguia seu coração. E não se julga um coração que segue seus instintos.

Como dois grandes quadros seus olhos guardavam todos os pequeninos reflexos que conseguia captar. Permanecia atento até sentir-se estranhamente só; e enviava pensamentos nas mais variadas direções. Eram apelos, preces, perguntas e confissões. Lançava-os como pedrinhas ao mar, na esperança de obter alguma resposta, na angustiante espera de perceber algum brilho especial que o fizesse ter certeza de que havia alguém ali. Apenas alguém.

Sentir-se amigo íntimo de todas as estrelas é sentir-se só, pois elas são infinitas. Contudo, certa noite tal estranho sentimento teve o seu fim, quando tendo seus olhos presos em um delicado ponto azul, sentiu-se deixar de pertencer a todas elas. Fora preso pelo delicado ponto distante, que de forma alguma se tratava do ornamento mais elaborado daquele céu. E mesmo não se tratando do brilho mais extravagante a ser visto, foi ali que seu coração encontrou conforto; e então ele pôde contemplar as cores vivas do sentimento de não ser só. Assim, em infindáveis segundos, alguma ponte foi feita entre ele e a estrela. Foi então que desenhou em sua noite um novo alfabeto, podendo sigilosamente trocar as mais delicadas confidências com sua nova amiga.

"Eram íntimos, eram dois e eram um, pois na eterna noite que é o espaço tudo é possível", me disseram certa vez, não me deixando dúvidas quanto a autenticidade dos sentimentos que nasceram daqueles olhos presos em uma estrela. Há quem diga que no momento em que ambos se cruzaram todas as outras estrelas sentiram-se magoadas e invejosas em relação àquela amizade.

Foi então que um outro ponto - certamente por ciúmes - rasgou o céu de um lado a outro, sem dó nem piedade da relação que acabara de nascer. Tal surpresa tirou seus olhos do distante ponto azul, que perdera-se em meio a todos os outros astros, sem ao menos dizer adeus. Derramou tímidas lágrimas antes de perder de vista o seu singelo ponto azul. Perdera-o para sempre, não havia dúvida. Contudo, sorriu ao saber, de alguma forma dentro de si, que havia vida fora de suas terras. Vida que pulsava e harmoniosamente se fazia perceber. Saberia definir aquilo? Não. Saberia explicar o que se passara? Jamais.

Existem coisas as quais simplesmente não se explicam. Sabemos sentí-las, mas não estamos aptos a entendê-las ou definí-las. A lógica da alma é algo obscuro e envolto em névoas; e é isso que todos nós precisamos entender. Essa harmonia mútua que ocorre entre duas almas não existe para ser decifrada. Em outras palavras, quero dizer que tudo que precisamos saber a seu respeito nos é inato, simplesmente agindo através de nossos corações. É essa a razão pela qual, embora soubesse que não estava só naquela noite, ele nunca soube que do outro lado do céu, encantada por um distante ponto vermelho, Lya admirava o céu de Moscou com nostalgia concreta. Sabendo - mesmo sem saber, meus amigos - que exatamente no ponto vermelho alguém a sentia no ar.

São caminhos que se cruzam no plano da Mãe Vida.
Olhares que se encontram na multidão infinita das estrelas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Violino


Há muito fui iniciado em uma arte
que não requer instrumentos, técnicas
ou até mesmo inspiração.

É a arte de amar aquilo que está ali,
calado no seio do futuro.
Sonho invisível, que tímido,
não chegou às minhas mãos.

Aprendi a esperar e adorar aquilo que desejo;
E obrigado a ferver no amor pelo invisível,
Fui iniciado contra minha vontade.

Aprendendo que se esperar, com paciência,
É uma virtude;

Amar o incriado é uma arte.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

ελεγεία (Elegia)


“But afterwards there occurred violent earthquakes and floods; and in a single day and night of misfortune all your warlike men in a body sank into the earth, and the island of Atlantis in like manner disappeared in the depths of the sea.”

- “Timaeus”, Plato -




Um raio rubro foi aquele primeiro a cortar o céu negro daquela noite. Veio com a rapidez de um pensamento frívolo, daqueles que passam desapercebidos pelas mentes tolas dos homens. Tal raio cortara as entranhas do céu declarando que o fim era ali, dando início à última tempestade que vi em minha antiga terra. A glória que reinava nos fartos tempos passados sangrava caída no chão, que sob os nossos pés desabava em grãos úmidos e sem vida, sem paz ou qualquer esboço de esperança. Juntamente com os raios, as gigantescas ondas abatiam-se sem piedade, lançando pesados golpes aos homens. Todos rastejavam como vermes, inconformados e banhados a lágrimas e ecos das antigas profecias. Com a queda das ondas veio a queda da grande torre; e com a queda da torre, a queda da realeza daqueles homens, estes sendo os primeiros causadores de todo o caos, aqueles que iniciaram a maior queda que a terra já presenciou dentro dos confins dos dois grandes e inseparáveis sábios que são o tempo e o espaço.

Despertei em meu leito com o grito de uma criança vindo dos jardins. Apesar de ter sentido há dias os pequenos tremores na terra, naquele dia havia algo a mais. Peregrinos vindos da costa oeste se encontravam desolados, sem suas casas e seus bens. Alegavam que ondas gigantescas haviam destruído tudo fora dos limites da costa. Em meio ao caos que tomava conta de meu vilarejo, o silêncio chegou com a queda do poderoso raio, que lançou sobre a terra um crescente tremor, tirando todos nós de nossos lares. Pouco a pouco o céu fechava-se em um tom negro de rebeldia e punição. Não restava dúvida de que as profecias se concretizavam. Senti o pânico tocar o coração de todos os meus companheiros. Permaneci imóvel.

Observando descrente e confuso o que se passava, tentei me encontrar em meio a triste guerra travada entre os Deuses e os homens. Todos corriam em diferentes direções. Ouvia gritos incandescentes, urros desesperadores. Me virei lentamente, em choque, ao me dar conta de que ali, entre tantos gritos sem sentido, ouvira meu nome. Da escuridão e da agonia, meu nome pronunciado veio como uma gota de luz em um escuro abismo. Não morri e nem me entregaria. Não eu. Jovem que era, tinha em mim a ambição típica daquele povo que em poucas horas se transformou na mais grandiosa lenda, passada de voz em voz, de sábio para sábio.

Virando subitamente vi minha casa afundar-se em míseros instantes terra a dentro. Minha vida inteira, minha família e lembranças agora estavam nas profundezas. A gota de luz se perdera no abismo. Corri. Não ousei olhar para trás. Corri rumo ao Leste guiado por instinto, sentindo uma forte presença vermelha nos céus. Não ouvi o medo, meus caros. Nem sequer pensei. Mas ouvi meu coração orgulhoso clamar por vida e senti minha alma queimar no desejo intenso de perpetuar a vida de minha poderosa nação. Não deixaria o fim daquela terra me levar.

Ao parar debaixo da copa de uma antiga árvore, o dia já havia se transformado em noite, descendo seu escuro manto sobre aqueles que outrora reinavam soberanos sobre os homens. Raios cada vez mais estrondosos ruíam as torres de minha amada terra, até então poderosa rainha dos mares... Corri por entre as árvores a fim de alcançar uma das últimas embarcações que saíam da costa leste rumo às abundantes terras dos colonos. Rumores diziam que tais embarcações se encontravam preparadas pelos antigos há muitas semanas.

Foi então que, passando uma última vez pelos bosques, em direção às praias, avistei de longe o imponente templo do Sol. Estava tão silente, tão calmo... Parecia inabalável a todo o caos que se instalara desde a manhã daquele dia. Era meu dever como filho daquela terra me despedir. Ali eu mal sentia os tremores e os ruídos assustadores que vinham das profundezas da terra. Suas paredes contavam toda a história da humanidade até então viva, através de cores, rostos e nomes dos quais jamais esquecerei.

Caminhando pela ala central lembrei do poder construído pelos homens através de milênios de existências naquelas terras azuis, filhas da água; e de seu interior pude contemplar pela última vez a visão da lua vista diretamente da janela maior. Estava vermelha, claramente visivel atrás de algumas nuvens; e como uma verdadeira soberana ela fazia dos raios seus meros aprendizes, pequenos sinos anunciando a fim daquele negro capítulo. Pareciam vir dela, caindo e afundando – talvez ornamentando, até - as terras em um cataclismo capaz de abalar mundos inteiros. Lembrei de minha esposa e pensei em minhas filhas, por pouco não desabando com o templo. Queria sucumbir e tomar minha parte na fusão que se dava entre a imensidão das terras com a imensidão das águas. Fui interrompido pelas paredes que começavam seu amargo lamento de despedida. Ajoelhado diante do registro indelével de minha história, beijei o chão e parti.

Corri sem me virar, sentindo as terras que deixava para trás de cederem à água. Corri, dando cada passo em nome de minha vida, de minha família e de minha terra, alcançando por fim as praias que continham em suas antigas areias as memórias infinitas daquele povo tão orgulhoso e soberano. A fúria da estrondosa batalha entre as terras e as águas tornava quase impossível ter esperanças. Deseperadamente corri sem rumo algum. Nunca em minha vida ouvira sons tão funestos e pesados. Doíam em meu interior, pois se não fossem os sons das dolorosas lágrimas de minha terra, eram os gritos dos Deuses. Verdadeiros urros titânicos.

Ao atingir as areias, para minha surpresa avistei três embarcações, prontas para arriscar uma fuga. Me salvei levando comigo apenas as vestes que estavam em meu corpo, sabendo que as chances de naufragarmos naquelas furiosas águas eram enormes. Assim, tudo que me restou dos últimos instantes em que estive em contato com minha terra desde que acordara era a esperança de ter vida e tempo para crer em tudo que estava se perdendo.

Afastamo-nos o máximo que pudemos, gritando como homens em guerra, na tentativa de sufocar os gritos e ruídos ensurdecedores que agora tomavam conta de tudo. Havia fogo, névoa e muito ódio em nossos corações. Diante da natureza - e dos Deuses conseqüentemente – nós somos impotentes. Pensei no poder de nossos Deuses, incomparavelmente maior que o nosso. Lembrei de como a minha raça os desafiara, tentando tomar seu lugar na terra. O som dos tremores repentinamente colidiram em um só explosão, nos lançando a incontáveis metros de distância. Ao retornar a mim mesmo, percebi os estrondosos ruídos se juntarem em um único som, por fim cedendo espaço aos sons leves da água, que já recolhia suas gigantescas ondas.

Pouco a pouco o fogo sumira e os céus calaram-se. Senti que toda a terra podia ouvir o triste fim de meu povo. Fim no qual tudo se perdeu num misto de terras e água, banhados por raios ensurdecedores e fogo. Em apenas um dia e uma noite todo o império e suas fartas terras sucumbiram nas frias águas do oceano. Restavam apenas nós, a lua vermelha e as águas.

A Atlântida não mais existia.


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Samhaim


"As you turned to go I heard you call my name,
You were like a bird in a cage spreading its wings to fly
''The old ways are lost,' you sang as you flew
And I wondered why."

- The Old Ways, Loreenna McKennitt -



Olhos negros e fortes eram aqueles que com força incisiva se fixavam sobre o mar. Eram olhos que possuiam os tons mais belos da natureza e abarcavam em si todo o vasto universo, com todos os seus segredos e anjos. Com todos os seus Deuses e todos os seus demônios. O vento frio brincava em seus longos cabelos enquanto ela acariciava a mais terrível fera daquela embarcação em seu colo. E brincava com os Deuses ouvindo os prenúncios de sonhos que soavam da distante terra para qual seguia. Dono de tantos mistérios femininos, seu coração possuia as chaves das verdades. Ele sim conseguia ouvir o que aquela elegante fera tinha a dizer, conduzindo a jornada em ritmo de uma tranqüila fuga. Assim, em prece e com seus olhos perdidos na imensidão azul, ela acariciava calada, em uníssono com as águas que cercavam aquela rústica embarcação, o silêncio de quem foge dos homens cruéis. Fugia para um último abraço de sua amada mãe terra.

O motivo de sua fuga pelos mares era apenas um: o fogo. Nele perecia todo aquele que tivesse acesso às verdades da Grande Mãe. E em seu errôneo uso ele era obrigado a lançar chamas em milhares de mulheres, homens e crianças, que no fundo nada mais eram do que simples filhos da natureza, que jamais deixariam de lado seus círculos, suas danças e seus Deuses. Apenas o fogo, erroneamente comandado por homens-bestas, era capaz de impedí-los. E apenas o fogo, apesar de cruel nesta ocasião, os libertava de um mundo onde apenas um Deus poderia reinar, através do sangue derramado. Sangue pagão de quem carregava aquela que é tríplice no coração.

Perdido no passado era o tempo em que as forças opostas equilibravam a vida. Agora, em trevas se encontravam aqueles irmãos e irmãs, filhos da Grande Mãe, carregando o sangue que corre nas veias das árvores e dos rios. Almas leves que brotaram das flores e das pedras, outrora preenchendo as terras com suas cores e seus perfumes de Maio... Tantas perderam-se no fogo, enquanto raras tentavam se encontrar na água. Quase perdidas.

Tais almas navegavam guiadas pelo silêncio para a esperança de uma nova terra, rumo às clareiras e bosques que as receberiam em seus secretos altares como um palácio recebe sua realeza. Fugiam para uma liberdade temporária que acabaria em chamas mais cedo ou mais tarde. Seguiam para uma última celebração; e navegando em resquícios de doces sonhos de uma outra era, ela, como uma sacerdotisa, acariciava o silêncio como uma mãe acaricia seu filho doente.

Não crer? – Jamais. Não ousaria perder a fé naquela que sempre a guiara, pois sabia que em sua glória jamais pereceria. Sabia em sua alma que seu corpo era ilusão passageira, porém sua fé e sua arte poderiam sobreviver a qualquer ódio ou força de todo e qualquer homem. Cantarolava com orgulho e tristeza o hino à nova terra, sabendo que um dia, cansada da tirania dos homens, dançaria com vida na terra dos mortos; e sua arte renasceria em um tempo distante daquele, trazendo ela, seus irmãos e suas irmãs para um novo nascer do sol.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Projeção


Começou como um doce fantasma que sai pela primeira vez de seu mausoléu, e seguiu bem lentamente enquanto abria passagem pelo ar com seu delicado perfume. Emanando mirra em sua levíssima dança, a fumaça do incenso vinha de mansinho para ajudá-lo em seu feito aventureiro. Começou pelos dedos dos pés: os envolveu, os acariciou e foi percorrendo seu tão conhecido caminho através dos pés, tornozelos e pernas até alcançar a cintura. Alcançando aquele estado ele respirou fundo e, embora tenha ensaiado exitar por um instante, lembrou de tudo que o esperava caso persistisse, permitindo que a antiga fragrância de mirra o conduzisse ao limite que o separava de tantas crenças humanas.

Abdômen, braços e mãos afundavam naquilo que soava como um delicioso sono; e se lembrava de tudo aquilo havia lido e de tudo aquilo que havia ouvido. Pouco importava se tudo que fora dito por suas tantas fontes era mentira ou não. O fato é que tais palavras o inspiravam a querer, a calar, a saber e a ousar. Ele queria conhecer. O que importava é que cada palavra capaz de tocar seu coração era ali uma peça fundamental. Verdadeiras professoras em uma prova que seria decisiva. Costas, pescoço, nuca... Afundando, se perdendo... se perdendo... Tinha a certeza absoluta de que adormeceria, botando tudo a perder mais uma vez. Seus olhos fechados não deixavam a penumbra do quarto o perturbar, fazendo ele se render de uma vez ao sono e se virar, desistindo de seu ambicioso trajeto. Agora sim ia descendo rapidamente como uma pedra no oceano. E seguia caindo de forma precisa, em queda livre, no abismo escuro e aconchegante de seu sono. Desistira sem saber que aquela entrega total viria a ser a chave que tanto buscava.

Então parou. Não estava acordado. Estava? Tudo estava imerso na escuridão e ele se sentia profundamente adormecido. Como ainda estaria ali, acordado, pensando? Lúcido! Estava pensando enquanto dormia? Não poderia. Claro que não. Esboçando uma conclusão ele ousou sorrir na sua face invisível de menino adormecido. E assim, naquele profundo rascunho de morte, uma energia pura e verdadeira veio repentinamente de seus pés, cruzando todo seu corpo até o alto da cabeça. Era isso, então! As palavras começavam a fazer sentido enquanto se sentia deslizar no meio do nada.

Sentiu-se encher aos poucos como um balão de gás sem fim. Foi ampliando seu espaço e seu contato com o mundo, sentindo-se do tamanho de seu quarto, de sua casa, de sua cidade! E quando sentiu que era do tamanho do universo, começou a movimentar-se no escuro de um lado para o outro em um determinado ritmo crescente. Sentia medo, justamente por compreender perfeitamente o que ocorria, quando ganhou força e abriu os agora peculiares – e verdadeiros - olhos de seu novo corpo. Olhou para baixo sorrindo ao ver a si mesmo, tão sereno, adormecido no aroma de Mirra. E mergulhou de cabeça no antigo espelho que há anos o desafiava a descobrir o que há por trás do mundo considerado real.