terça-feira, 28 de julho de 2009

Romani

A cena se divide em duas partes: um mar de ondas de areia branca e um infinito céu escuro, repleto de estrelas cravadas em sua superfície lisa, lideradas por uma lua crescente. Apenas a fogueira define de forma delicada o limite entre o que é areia e o que é céu. Suas chamas queimam não apenas a madeira, pois também se alimentam dos sonhos opacos daqueles que a sua volta se encontram. Indivíduos sem história, tempo ou lugar. Seus sonhos nada mais são do que lembranças de alguém que viverá incontáveis anos a frente deles mesmos.

Ao olhar a lua minguante no céu, eu penso sobre como aquela mesma lua se encontrava ali quando o primeiro homem descobriu o fogo e a noite iluminada. Me choca a idade do tempo. E mais que isso, me choca sua inexistência exata. Tal inexistência sim é O Mistério, prova de que algo superior a nós nos observa e nos fala. Aquelas pessoas em volta da fogueira não me enxergam. Eu me sinto atraído por suas vestes, seus aromas e seus sons. Me aproximo.

Fita vermelha ao vento. Pandeirola em mãos em ritmo circular, quase hipnotizante. Ela roda em torno do fogo como se tal dança fosse a única missão de sua ínfima existência. Dona de uma longa saia também vermelha e de cabelos longos e negros, ela dança como a lembrança vaga que é. Seus olhos parecem vazios. Eu sinto algum conforto em sua dança e percebo claramente que respeito esta mulher.

Sentado na areia, sem piscar, um homem de olhar negro e pele avermelhada me desafia. Seus cabelos pretos estão parcialmente escondidos por um lenço; suas mãos tiram sons de seu instrumento como se fossem seres com vontade própria. Não gosto dele, sem exatamente encontrar uma razão para isto. Tal homem instiga em mim sentimentos estranhos e sem nome. Ele me incomoda de forma íntima, quase proposital.

Então olho o fogo; e sem ter grandes esperanças relacionadas à minha vida, finalmente entendo. Contudo, momentos assim, de epifania, podem ser como pequenas desgraças que, apesar de passageiras, deixam marcas eternas. Em tais momentos, a vida faz todo sentido. Escutamos Deus e enxergamos o tempo, mas não conseguimos expressar tal conhecimento. É algo que deve ficar preso, silente em nossa alma.

Mais que a audaciosa mulher, ele me intriga - e o faz em silêncio – pois seu olhar fixo no fogo me diz que ele sabe que está sendo observado. É num misto de conforto e dor, de saudade e angústia, que eu entendo:

Aquele homem sou eu.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Prece


Deito na grama gelada.

Tapete frio, incansavelmente desafiando seu oponente sem fim, um eterno céu negro perfurado por estrelas. Luzes do meu presente, elas sussurram segredos. Restos de um distante ontem que a mim não pertence, elas também ecoam histórias. Histórias fantásticas. Deito na grama para acolher a multidão que grita a cima de meu corpo, diante de meus olhos. O delicado caos de luz cai sobre mim como guerreiros cobrindo uma vasta planície. São altas e elegantes ondas de gigantescas estrelas que a esta terra chegam como pedrinhas de diamantes. Todas gritam ao mesmo tempo. São tantos destinos. Tantos tempos perdidos em diferentes pontos do céu... Acredito. Sim. Acredito no que não posso ver. E o faço com toda a força, justamente por estar vendo aquilo que não mais existe lá, há anos-luz daqui. Acredito sim. E agora o universo inteiro existe aqui.

Deito na grama para dizer a Deus que sim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Spell

You, my own night rainbow
Shinning in tune with every star in the Sky
Bring back my magic, indeed sadly lost,
In the mist of this shrine

You, my midnight garden
With your flowers held still,
Bring your venom to my veins
Take my soul as your own shield

You, my frightening storm
With your great, hypnotic lightning
Bring my prayers to an end,
heal the wounds of this sad crying

Cast a spell, beloved one
As a hymn to our own love
For my life, a dark night,
Needs your light, my bitter sun.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sem Título


Eu não te amo, porque isso, nas atuais circunstâncias, seria a maior loucura da minha vida. E olha que loucuras não faltam por aqui...

Apesar de não te amar, eu sei que havia - e agora eu sei que ainda há - algo em mim que há muito tempo eu considerava morto. Algo como um baú trancado, escondido e empoeirado em algum canto daquilo que eu conheço como alma. Esse algo do qual eu já havia me esquecido há tanto tempo, veja bem, estava imerso no silêncio de uma cor que nunca mais seria vista, se dependesse de minha vontade. Então, quase que instantaneamente, aquela rocha que era o silêncio se dissipou como pedacinhos da dente-de-leão. Você surgiu. Ou melhor, eu surgi para você sem nunca ter escolhido isso. Sem nunca ter escolhido você. E foi justamente você quem imediatamente deu sentido a uma gama de canções que nunca sairam da minha mente.

Não me entenda mal, pois não desejo ser piegas (e esse assunto não ajuda muito nesse sentido). Não estou aqui discorrendo a respeito de um sentimento que me coloca em uma espécie de espaço de luz mágica que contagia a tudo e a todos, fazendo do mundo um lugar melhor. Muito menos estou me referindo a uma rajada brutal de alegria nua e crua, daquelas que nos fazem sentir o peito pesar e o mundo diminuir aos nossos pés, nos tornando príncipes anônimos, reinando silenciosamente por imensuráveis segundos. Não me refiro a esse estado de graça tão sólido. Me refiro a algo muito mais simples. E preste atenção, querido. Algo muito, mas muito mais poderoso do que tudo isso. Agora me diga, rapaz. Seria amor?

Eu sei que eu não te amo, mas eu também sei - e muito bem, acredite - que você tem aí dentro de ti algo que de alguma forma chegou a mim e iluminou lugares que eu nem sequer sabia que existiam. Ridículo, eu sei. Três meses sem escrever uma linha de meus supostamente profundos textos e agora apareço com um discurso de mocinha de dezesete anos. Bem, eu não vou dar ouvidos a mim mesmo, até porque acredito que você não vai ler essas palavras... Acredito mesmo, porque acreditar é tão bom, meu Deus! Acreditar signfica ter certeza de algo sem banir por completo as possibilidades que queremos ou não que venham a se concretizar.

Eu não te amo.

Eu não te amo ainda, talvez... Mas não importa. Só não quero te ver indo embora, me deixando sozinho com esse algo que (re)descobri. Você inaugurou alas em um palácio que sempre é abandonado por todos os seus inúmeros visitantes. Não passe por aqui para me deixar sem as chaves das portas que você abriu. Fique e me mostre que no final das contas, apesar de eu não te amar...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Onírico III


Roxo e preto eram as cores que intercalavam-se em um padrão rítmico hipnotizante. Despertei parcialmente, dando-me conta da estranha sensação de estar em um carro em alta velocidade. Eu estava deitado, seguindo velozmente por dentro do que me parecia ser um túnel de pedra. Cuidadosamente perfurando alguma rocha de tamanhos imensuráveis, tal túnel possuía apenas uma parede regular, a qual do meu ponto de vista seria a parede esquerda. A parede direita, por sua vez, me permitia ver o céu lá fora, pois vãos brutalmente esculpidos passavam por mim à medida que eu seguia para meu desconhecido destino. Olhava o céu paralisado em minha viagem daquela noite.

Após um considerável aumento na velocidade em que eu me encontrava, fui lançado para fora do túnel de pedra, agora levemente flutuando e pousando no meio daquela paisagem desconhecida. Eu me encontrava em uma grande planície desértica e árida, que me passava uma solidão incontestável. A terra lisa e plana entrava em um contraste estranho com aquele céu roxo que, àquela altura não mais me instigava a investigar o lugar.

Senti um certo desespero, embora não mais estivesse só. Havia muitas pessoas ali. Todas cobertas em vestes estranhas, panos que remetiam às nossas culturas indianas e árabes. Não me lembro com detalhes, mas sei que esta é a única associação que consigo fazer entre aquele povo e alguma coisa que eu de fato conheça. Para ser mais exato, não diria que ali se encontrava um povo apenas. Talvez fossem pessoas de diferentes povos, não sei. Tenho a vaga impressão de que ouvia diferentes línguas, em diferentes timbres e cores...

Aquela planície possuía um quê de ponto de convergência de viajantes. Em um primeiro momento, minha impressão era a de que se tratava de um local de trocas, compras etc. Entretanto, a situação era assustadora. Dei-me conta de que o tumulto que lá ocorria se constituía do pranto de alguns e dos gritos de outros, percebi a ira dolorosa daqueles que lá estavam. Pareciam pobres e extremamente injustiçados. Tal lugar parecia o que aqui na terra conhecemos por campo de concentração. Pude reparar que algumas pessoas procuravam por outras, enquanto algumas limitavam-se a gritar. Eu estava entre elas, mas não sabia o porquê. Estávamos todos apertados, contidos em um determinado perímetro por força daqueles que pareciam ser soldados.

Estes por sua vez eram seres um tanto maiores, que se encontravam em cima de animais grandes como os cavalos. Confesso que não me recordo se de fato utilizavam tais animais ou se – e não tenho medo de dizer que isso me parece o mais provável – se travam dos animais em si, como se fossem centauros. Essas criaturas possuíam chicotes com os quais repreendiam aqueles que tentavam se manifestar ou agredi-los de perto com palavras. Lembro de uma mulher sendo chicoteada a nossa frente, causando grande tumulto entre nós, que estávamos por perto. Lembro-me de não estar realmente amedrontado neste momento, pois após algum tempo eu queria apenas me situar naquele cenário caótico. Só queria entender o que ocorria.

Mil coisas se passaram pela minha mente ao ver tudo aquilo... Atordoado, consegui manter a calma para só então perceber que havia armas. Chocado, notei que aquelas pessoas estavam a ponto de travar uma verdadeira batalha. Algumas estavam portando armas exóticas sobre as quais não sei falar absolutamente nada. De fato era isso. Uma revolução, uma grande batalha, uma revolta que não poderia ser contida. Eu não deveria estar ali, sob aquele céu. Não tinha e nem tenho idéia de como fui parar em tal local. Corri rumo á planície, tomando impulso para me lançar de volta ao túnel de pedra. Tal escolha me fez despertar em meu quarto, assustado como de costume.

Não conheço aquela terra, não conheço aquelas pessoas e muito menos aqueles seres tão brutos. Havia uma imposição de poder da parte deles, como se fossem colonizadores, talvez. Me intriga ter ganhado a consciência em um local que se encontra sem um ponto definido no tempo e no espaço; e me intriga mais ainda ter percebido claramente os sentimentos daquelas pessoas, mesmo sem entender sequer uma palavra das estranhas línguas daquela terra de céu púrpura.


sábado, 2 de agosto de 2008

Onírico II

"Hear my silent prayers
Heed my quiet call
When the dark and blue surround you
Step into my sigh
Look inside the light
You will know that I have found you"
- Dreamcatcher, Secret Garden -

A idéia de realizar o menor movimento para levantar-me soava como um esforço hercúleo. Pedaços de silêncio e sono, mesclados, penduravam-se delicadamente nos detalhes de meu quarto.

Imerso na penumbra tentei chamar sem sucesso por meu irmão, que dormia na cama ao lado. A sensação de acolhimento que a sonolência provia agora parecia desfazer-se. Não conseguia pronunciar absolutamente nada e, muito menos, sentia minha respiração fluir. Tal quadro me pareceu muito grave, me preocupando ao extremo. O sono já havia se dissipado e agora eu tentava – ainda sem sucesso algum – levantar-me para buscar ajuda. Foi então que notei as formas peculiares que estavam diante de mim.

Pude reparar nas silhuetas daquilo que pareciam ser duas meninas por volta de seus treze ou quatorze anos. Não conseguia distinguir, em meio à penumbra, as cores de seus cabelos longos ou de seus vestidos. Eram sombras sentadas aos pés de minha cama, aterrorizando-me a cada vez em que eu tentava chamá-las a atenção em vão. Pareciam procurar algo, ou simplesmente conversavam. Trocavam confissões, talvez... Eu tentava gritar. Eu queria sentir-me livre, tentando aplicar uma força verdadeiramente descomunal para mover um dedo que fosse.

Parei em choque quando, para meu desespero, notei aquilo que parecia estar me olhando de cima. Esta terceira figura – também ela uma sombra - se tratava de uma figura masculina, que por sua vez se encontrava por trás do espelho de minha cama. Minha voz soava distante, como se eu estivesse dentro d’água. Meus gritos perdiam-se em meio a um estranho silêncio, sendo o único som nítido uma ofegante respiração que parecia alternar-se entre meus ouvidos, indo freneticamente da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. Sentia como se algo me segurasse, prendendo-me àquela cama e àquele quarto, forçando-me a ver as três criaturas que me acompanhavam.

Ao não mais suportar aquilo, me rendi; e desistindo de gritar ou de chamar por qualquer ajuda, finamente me movi, correndo em lágrimas para o quarto de meus pais. Acordei-os afirmando com angústia que algo se encontrava em meu quarto. Contudo, eu sabia secretamente, bem no fundo, que além de meu irmão nada havia lá. Disfarcei as verdadeiras raízes de minha angústia, que não passava de uma triste frustração.

Eu havia pela primeira vez despertado em um mundo que não era o meu e mal o explorara por conta de minhas tolas inseguranças. Assim, o medo e a aflição perdiam suas cores à medida em que eu me embalava na possibilidade de ter finalmente encontrado as fadas com as quais sempre sonhei. Seres que talvez me guardassem, trocando segredos aos pés de minha cama.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Onírico I


Eu estava em um beco escuro. Exatamente, simples assim. Em um beco escuro. Acabara de correr de alguns meninos que haviam tentado nos assaltar por três vezes seguidas, numa repetição de uma mesma cena que muito me inquietara. Eu havia corrido dali sem saber para onde ir, me separando de meu amigo, do qual já não sabia mais nada àquela altura. Naquela fuga sem pé nem cabeça acabei me deparando com o escuro beco, no qual me escondi.

Parado ali eu tentava compreender o que estava se passando. Tudo estava muito estranho e aquele ambiente não me inspirava muita confiança, apesar de também não instigar em mim o medo que sempre sinto diante do desconhecido.

Reparei que ao final do beco havia uma porta por onde escapava uma luz que me parecia muito forte. Aproximava-me sem pensar duas vezes quando a porta foi aberta, me surpreendendo. Como se tivesse ouvido meus decididos passos, um simpático de senhor de cabelos brancos e olhos azuis abrira a tal porta:

- Henrique! Bom te ver! Entre, entre!

Ao passar pela porta deparei-me com o que parecia ser uma espécie de cozinha. Não que de fato o fosse, pois não vi alimentos ou panelas ou qualquer coisa do gênero. A associação que faço entre o estranho lugar e o universo “cozinha” tem origem no simples fato de o lugar ser iluminado com uma luz branca muito forte e possuir uma série de mesas e balcões de metal.

Entrei tímido, pois reparei que minha presença chamava atenção. Todos os que lá estavam era senhores e senhoras de idade avançada. Não sei se de fato viviam naquele lugar, que a essa altura já me remetia a um ambiente hospitalar – novamente, associação por conta da iluminação, das cores etc. – O fato é que além de todos aparentarem uma idade avançada, todos vestiam roupas brancas. Passavam por mim sorrisos simpaticíssimos, acolhedores. Sorriam em cada gesto, aqueles que lá estavam. Todos os olhos azuis fitavam-me num misto de alegria e curiosidade. Todos pareciam me conhecer, fazendo com que eu me sentisse muito bem recebido, apesar de extremamente confuso. Desta forma fui conduzido a uma ampla varanda, em outro andar, acredito.

Ao adentrar novo ambiente percebi diversas mesas brancas, quase iluminadas. Possuíam detalhes dourados muito bem esculpidos, que culminavam numa ornamentação estupenda, a meu ver. O ambiente agradável daquela varanda, aliado à cor branca das mesas, gerava um contraste interessante com o céu que, até hoje, é o mais negro que eu já vi. Não vi lua, nem vi estrelas naquele céu. Tampouco ventava naquela varanda, algo que agora, ao lembrar-me deste episódio, muito me intriga.

Sentado a uma das mesas, me foi dito que deveria aguardar ali, o que fiz sem que estivesse nervoso ou aflito, até perceber três senhoras que se dirigiam à mesa. As três possuíam longos cabelos brancos. Contudo, me recordo com certa riqueza de detalhes apenas de uma delas, que possuía longos cabelos acinzentados e um pouco encaracolados. Lembro-me vagamente de reparar em alguns colares pendurados em seu pescoço. Tal senhora, diante de mim, indagou simpaticamente:

- Então, Henrique. Como se sente desencarnado?

Parado, em choque, percebi o que se passava. Num ato súbito e impensado, não me contive:

- Mas não estou morto! Não estou desencarnado coisa nenhuma!

As três senhoras agora aparentavam uma verdadeira indignação, e reclamavam, nitidamente alteradas. Não sei ao certo se discutiam entre si ou se me repreendiam. Eu sentia como se houvesse as ofendido profundamente, pois minha resposta impensada instalara um verdadeiro rebuliço na harmoniosa varanda.

Enquanto tentava me desculpar, ou acalmá-las de alguma forma, fui surpreendido por um vento muito forte, que golpeou a varanda, me carregando dali sabe Deus para onde.

Despertei em minha cama num pulo. O frio na barriga revirou-me o estômago.